sábado, 11 de junho de 2011

Reflexões sobre a profissão de economista - Parte 1 - Dos gritos...

A data do dia 13 de agosto de 2011 é uma data comemorativa para a categoria dos economistas. Há cerca de 60 anos, no dia 13 de agosto de 1951, o então Presidente Getúlio Dorneles Vargas sancionou a Lei n.º 1.411 que passou a regulamentar o exercício profissional do economista. Somaram-se a esta lei o Decreto n.º 31.794 de 17 de novembro de 1952, a Lei n.º 6.021 de 03 de janeiro de 1974, a Lei n.º 6.537 de 19 de junho de 1978 e a Lei n.º 6.206 de 07 de maio de 1975. É este conjunto legal que atualmente regulamenta a profissão de economista no Brasil.
Não por um acaso a profissão de economista acabou regulamentada em um momento pelo qual a sociedade brasileira estava passando por uma série de significativas transformações, econômica, sociais e estruturais. Estas transformações precisavam ser pensadas e planejadas. Metas precisavam ser definidas, um projeto de nação precisava ser construído e posto em prática. Muito mais do que uma interpretação de mundo a sociedade precisava de um profissional que ajudasse a transformar o mundo. Um profissional visionário que tivesse condições de ajudar a superar o velho e construir o novo, capaz, portanto, de transformar sonhos em realidade, projetos em ações concretas, tendo ferramentas adequadas, portanto, para elaborar diagnósticos precisos, cenários futuros e principalmente sugerir prescrições adequadas em termos de políticas públicas e ações empresariais. Deu-se então o primeiro grito: Chamem os economistas!
Certamente do Plano de Metas ao II Plano Nacional de Desenvolvimento, período no qual a economia brasileira passou por uma idade dourada, com taxas de crescimento econômico expressíveis, que indicavam que o Brasil havia mudado, a antiga colônia de exploração agrícola já havia se transformado em uma sociedade urbana e industrial, a sétima economia do mundo capitalista. Mas como ensinou o maior economista do Século XX, Jonh Maynard Keynes, apesar de o capitalismo ser estruturalmente estável a instabilidade dinâmica está em seu DNA, e a economia mundial quando todos pensavam que o capitalismo estava domesticado mais uma vez pregou uma surpresa ao desavisados, o dragão soltou as suas labaredas e as altas taxas de inflação ao lado da estagnação da economia propiciou a morte do keynesianismo e a ascensão dos arautos do neoliberalismo que com os seus cavaleiros do apocalipse proclamaram a supremacia do mercado, um ser reificado que naturalmente teria condições de se equilibrar em pleno emprego sem necessidade de nenhuma interferência externa para dar sentido à ordem social. Surge a era das expectativas adaptativas que logo logo se transformaria em expectativas racionais. O senhor mercado, como que num passe de mágica, em questão de tempo, resolveria todos os problemas da sociedade, sejam estes quais fossem, bastava que o mercado tivesse liberdade e os contratos e compromissos fossem honrados. O liberalismo como a fênix ressurge das cinzas.
 É neste momento que o Brasil vive o período mais negro de sua história econômica, com duas décadas perdidas, inúmeros planos de estabilização fracassados, o sonho desenvolvimentista prostrado. O país do futuro não tinha nem o presente e o complexo de vira-lata tomou conta da pseudo elite-intelectual que passou a aceitar tudo o que era prescrito por agências internacionais de uma forma acrítica, a-histórica e atemporal. A ordem era abrir o mercado, desregulamentá-lo, privatizar, reformar o Estado e promover os ajustes macroeconômicos necessários. A história já tinha chegado ao seu fim, vivíamos em uma nova sociedade em rede que tinha como expressão principal a compressão tempo-espaço e a flexibilização. Teorias foram importadas sem mediações e neste processo o sonho do Brasil Potência desceu pelo ralo da submissão intelectual e econômica. Projeto nacional de desenvolvimento? Isto passou a ser coisa de dinossauro, pensadores retrógados e ultrapassados. A onda passou a ser o desenvolvimento endógeno, viva o local! Exclamavam os entendidos. A esperança de salvação passou a estar na cultura, no capital social e nas instituições. A ficção de Tron se torna de modo caricatural uma realidade. O mundo passa a ser definitivamente binário. Ou somos conectados ou excluídos. Basta construirmos o nosso pacto! O novo grito estava dado: Para fora com os economistas!

2 comentários:

  1. Professor Eduardo, parabéns pelo blog. Sem pedir permissão, vou adicioná-lo ao meu blogroll.
    Sobre a luta contra a divisão do Pará, vamos lutar até o último instante, incessantemente.
    Teu aluno da UFPA.

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  2. Emocionante o modo como a história da profissão de economista no Brasil foi narrada nesta reflexão. É impossível começar a ler e não ficar cada vez mais curioso e interessado.
    Nossa carreira é marcada pelo exagero, somos amados ou desprezados. O economista é o profissional das crises, quando todos os demais falham é hora de recorrer ao economista como a última esperança.
    É até conscidência tratar dessa mudança de pensamento econômico do keynesianismo para o neoliberalismo, pois recentemente estudei sobre isso em uma disciplina ofertada na UFPA.
    Fica mais uma vez meu humilde porém sincero parabéns ao brilhante autor deste blog, e aguardo a continuação.

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