quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Crônicas sobre o Separatismo (Parte 6): Cuidado, o verdadeiro perigo do plebiscito

A cada dia que passa a sociedade paraense envolve-se cada vez mais nas discussões sobre o plebiscito do dia 11 de dezembro que irá consultar a população do Pará sobre a divisão do estado e criação dos estados de Carajás e Tapajós. Tenho participado de vários debates sobre o assunto e sempre tenho alertado que o verdadeiro perigo do plebiscito não é a divisão geográfica, mas sim a divisão de povos.
A discussão do separatismo deve-se manter apenas no campo das idéias. Jamais pode caminhar no rumo do preconceito, xenofobia, radicalismo ou incitação a violência. Trata-se de uma consulta popular em um ambiente de incitação a democracia, que muitos deram a vida para que gozássemos dela, na qual se exige de todos muita maturidade na divulgação de informações e no comportamento ao longo da campanha. Os mais conscientes, iluminados, sabem que a nossa luta não é contra nossos irmãos que vivem no mesmo espaço territorial que historicamente foi denominado de Pará. Os nossos reais inimigos são o nosso modelo de desenvolvimento predatório e desigual, a ineficiência da gestão pública, a maneira rasteira, para não dizer antiética, de se fazer política por parte de alguns, a falta de políticos realmente engajados com as necessidades sociais, justiça seja feita com algumas exceções, e a corrupção que drena constantemente recursos dos cofres públicos e que com isto deixam de chegar a quem realmente necessita de políticas públicas eficientes, eficazes e efetivas.
Enquanto não mudarmos este quadro este espaço geográfico unificado ou dividido em três novos espaços continuará sendo uma região econômica periférica, subdesenvolvida, com lastimáveis indicadores sociais e com baixa capacidade de intervenção em termos de políticas públicas. É certo que havendo a divisão a capacidade de implementação de políticas públicas irá diminuir na medida em que iremos aumentar o custeio do Estado e diminuir a sua capacidade de investimento. Noutras palavras, gastaremos mais com contratação de servidores públicos e na manutenção da nova máquina administrativa do que com saúde, educação, infraestrutura, transporte público etc.
Mas deixemos isto de lado e voltemos ao que considero perigoso neste debate, a divisão de povos. Venho acompanhando com alguma preocupação algumas manifestações e alguns relatos nas últimas semanas. Seria cansativo se relatasse todos aqui, porém ilustrarei o real perigo deste plebiscito com alguns fatos. Lamentavelmente deparei-me hoje com um relato mentiroso e difamatório plantado propositalmente nas mídias sociais e em alguns blogs de que um automóvel de um aluno da UFPA teria sido depredado no dia 06 de outubro logo após um debate por possuir um adesivo favorável a divisão. Este é o exemplo da forma rasteira de se fazer política. Trata-se da tentativa de se criar um fato político para mexer com os brios das pessoas. Mas acima de tudo é um ato irresponsável de incitação a violência que não deve ser incentivado neste processo. Tal situação não aconteceu. Participei do debate, organizado pelos alunos de direito da UFPA, e não houve nenhuma manifestação de violência neste dia. Nem antes, nem durante e nem após o debate. Esta é um exemplo do que é a política rasteira, que se vale de mentiras, calúnias e através delas procuram criar um fato político para poderem manipular a população através dos seus sentimentos.
Ademais, tenho escutado e visto depoimentos que afirmam que a divisão vai acontecer de qualquer forma, seja no voto, na “bala” ou no “tecado”. Basta entrar nas redes sociais nos grupos favoráveis a divisão do estado do Pará que afirmações fortes como esta e contra paraenses são incentivadas por pessoas que considero irresponsáveis.
Se isto já não bastasse aumentam os relatos de que alguns paraenses da capital estão passando a ser hostilizados principalmente no sudeste do estado. Estes vêm sofrendo desde boicotes comerciais e passam a ser até mesmo coagidos dentro do seu próprio estado. Aliás, fui ao jogo do Brasil contra a Argentina com um grupo de amigos, todos caracterizados com bandeira e a camisas do Pará, e ao parar para lanchar após o jogo fomos grosseiramente afrontados por um grupo que se dizia do sudeste do estado. Será que não podemos mais usar camisas com a bandeira do Pará na própria capital do estado do Pará?    
Tenho o meu posicionamento e a democracia me permite participar deste processo colocando o meu ponto de vista, mas sempre respeitando opiniões adversas. É um debate, reitero, que precisa ser travado com muita maturidade e ética. É um debate de idéias, e não uma guerra entre pessoas ou povos, como alguns pretendem transformar o processo.  
Tenho um blog denominado Economia, Política e Religião no qual sempre posto notícias e o meu ponto de vista. A Constituição me garante este direito, o direito democrático de expressar a minha opinião. Entretanto, nos últimos dias venho por meio do blog recebendo postagens anônimas, e estes covardes sempre se escondem no anonimato, eivadas de palavras de baixo calão e extremamente ofensivas. Estes não querem debater e muito menos dialogar. Querem ofender e agredir, até mesmo porque a violência seja esta física, verbal ou escrita é a única alternativa de quem não tem argumentos. Sobre este ponto recorro a palavra de Deus que nos ensina que a boca fala do que o coração está cheio (Lc 6:45). Um ditado popular afirma com muita sabedoria que “o homem bom, do bom tesouro do seu coração tira o bem, e o homem mau, do mau tesouro do seu coração tira o mal, porque da abundância do seu coração fala a boca.”
Não tenho dúvida de que estas manifestações partem de pessoas amarguradas que possuem um coração endurecido pela vida. Lembro de outro ditado que afirma que “quem semeia alegria, colhe felicidade, e quem semeia vento colhe tempestade.” Não vou entrar neste jogo, até mesmo porque acredito que podemos lutar pelos nossos ideais com ética e moralidade. Esta é uma prática Cristã de respeito ao próximo. Continuarei respeitando esta minoria mesmo sem ser respeitado. Espero que um dia eles entendam que os verdadeiros inimigos deles são outros.
A principal lição que podemos tirar de todo este contexto é a de que a democracia é bela, porém muito difícil de ser praticada. Requer uma sociedade engajada e amadurecida. Nela a vitória vem pelo poder de convencimento, e este de argumentações bem fundamentadas, jamais pela força, brutalidade ou manipulação de dados ou informações. Ademais, a tentativa de manipulação da população é um ato lamentável praticado por um pequeno grupo que coloca as suas ambições pessoais acima de qualquer coisa. Neste processo perdem o escrúpulo e ultrapassam todos os limites.
   Termino esta crônica fazendo um apelo generalizado. Que a nossa luta fique apenas no campo das idéias. Não podemos deixar que preconceitos, radicalismos, xenofobia ou até mesmo a violência aflore neste processo. Viva a democracia!

2 comentários:

  1. Parabéns professor, muito legal o seu blog. Continue sempre repassando as suas informações com sabedoria e conforme a palavra de DEUS.
    Vc foi muito feliz ao fazer este comentário, seguindo aquilo que o Senhor quer q façamos (Mateus, 5, 44-45...‎"Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos."
    Mais uma vez, parabéns, muito sucesso e que JESUS esteja sempre iluminando os seus caminhos.

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  2. Essa liderança política é uma verdadeira referencia de liderança política que os demais políticos (senadores, deputados, vereadores, governadores e prefeitos) do nosso País precisam seguir, principalmente os do nosso Estado/PA.
    Afonso. Ferreira

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