quinta-feira, 28 de junho de 2012

Armando Dias Mendes: o legado de um mestre


Compartilho na íntegra a homenagem prestada pelo Conselho Regional de Economia do Estado do Pará (CORECON-PA), Sindicato dos Economistas do Estado do Pará (SINDECON), Associação de Oficiais da Reserva do Exército Brasileiro (AORE), Conselho Federal de Economia (COFECON) e Federação Nacional dos Economistas (FENECON), que eu escrevi e que foi lida por ocasião da Missa de Sétimo dia do Prof. Armando Dias Mendes no último dia 21 de junho.


Armando Dias Mendes: o legado de um mestre

Eduardo José Monteiro da Costa[1]

No último dia 15 de junho de 2012 a sociedade amazônica entrou em um profundo luto, afetivo, moral e intelectual. Os amazônidas perderam uma de suas maiores referências. Exemplo de amigo, irmão, professor e mestre. Um sonhador por natureza. Alguém que perseguia a utopia. Faleceu no período da tarde, em sua residência em Brasília, Armando Dias Mendes. Ícone do pensamento crítico sobre o desenvolvimento da Amazônia; Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais; Especialista em Planejamento Regional; professor e Pró-Reitor da UFPA; Doutor honoris causa pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e pela Universidade da Amazônia (UNAMA); fundador do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA); membro destacado e fundador da Associação de Oficiais da Reserva do Exército Brasileiro (AORE); membro emérito do Conselho Regional de Economia do Estado do Pará (CORECON-PA). Foi Assessor Especial do Ministro e Secretário-Geral do Ministério da Educação; Professor Colaborador da Universidade de Brasília (UNB); relator do Currículo Mínimo do Curso de Ciências Econômicas no Conselho Federal de Educação; presidiu a Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação em Economia; e foi eleito Personalidade Econômica do Ano de 2006 pelo Conselho Federal de Economia (COFECON), onde recentemente atuava como Consultor para Amazônia, desenvolvimento sustentável e ensino superior.
Dentre as inúmeras funções públicas que desempenhou, presidiu o Banco de Crédito da Amazônia (antecessor do Banco da Amazônia) e coordenou o I Plano Quinquenal de Desenvolvimento da Amazônia (1955-1959) para a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (SPVEA), que antecedeu atual Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM).
Não há dúvida de que Armando Mendes, do início ao final de sua jornada, sonhava com uma trajetória diferente para a nossa região. Em sua jornada deixou vários rastros e um imenso legado intelectual: inúmeras palestras e conferências. Diversos livros publicados: Estradas para o desenvolvimento; Viabilidade Econômica da Amazônia; A Invenção da Amazônia; Instrumentos para a Invenção da Amazônia; Ciência, Universidade e Crise; O mato e o mito; A casa e as suas raízes; A cidade transitiva; Amazônia – modos de (o)usar; e, O Economista e o Ornitorrinco.
Foi por lutar por causa nobre, a Amazônia, que no dia 21 de abril de 2008 recebeu na Cidade de Palmas, Tocantins, o Prêmio Samuel Benchimol. Em seu discurso de agradecimento já destacava de forma crítica que a Amazônia era estigmatizada entre dois fundamentalismos nefelibatas: o ecológico e o econômico. Como contraponto Armando Mendes clamava para que a Amazônia: não fosse mera extensão nacional, mas reta intenção; não se configurasse como questão regional, mas nacional de primeira linha; superasse o antagonismo do caráter bi-polar, contraditório e ambíguo da postura nacional frente à região; fosse receptáculo de ações pela região e não somente na região; suporta-se os usos, mas rejeitasse os abusos; fosse alvo de amor benevolente do Estado do Brasil, e não de domínio sobre o Estado do Grão-Pará; fosse palco de dois dois imperativos categóricos do momento: o envolvimento com o hábitat, o desenvolvimento do habitante.
Dentre as inúmeras lições do mestre é possível destacar a necessidade enfrentar uma causa social e não pessoal.  Em seu artigo “A Oca e a Flexa”, Armando Mendes ressaltava: “ É preciso, pois, garantir a existência de um lugar para reflexão ininterrupta e sistemática, já não sobre o existir físico, mas sobre o pulsar do espírito do lugar amazônico – a sua alma mater. Essa reflexão há de se tornar tarefa irrecusável dos amazônidas de boa cepa, os nativos e os adotivos — partes conscientes e viventes da obra da criação prolongada, situada aqui, ainda em curso, inconfundível”
No último dia 06 de junho o professor Armando Mendes, como gostava de chamá-lo, brindou uma atenta plateia por ocasião da abertura do VI Encontro de Economistas da Amazônia com a Conferência Magna: “1912 – 2012 Cem Anos da Crise da Borracha na Amazônia: Do Retrospecto ao Prospecto”. Não imaginávamos, mas era a sua despedida! Deixou a nossa convivência em alto estilo, com humor, irreverência, mas acima de tudo apresentando uma visão crítica sobre a forma como a nação brasileira trata a Amazônia. Relacionou a problemática da Amazônia com diversos clássicos da literatura brasileira. Chamou atenção para a forma como a Amazônia vem sendo castigada por um pacto federativo perverso. Recorrendo a sua memória histórica contou ao público presente como a Constituição “Cidadã” de 1988, que se propunha lutar contra as desigualdades sociais e regionais, foi, por manobras das bancadas de estados mais desenvolvidos, distorcida em seus aspectos fundamentais. Para Armando Mendes a Constituição Federal é contraditória na medida em que por meio de uma série de legislações complementares acabou construindo um modelo federativo que reforça as desigualdades regionais. Assim, se referindo à forma como alguns estados são tratados, destacou que “alguns são mais iguais do que os outros!”
Como bons discípulos, se aprendemos bem a lição do mestre Armando Mendes, podemos dizer que se em algum momento a Amazônia como nós hoje a conhecemos foi inventada, e o foi, principalmente através de políticas e ações coordenadas pelo Governo Federal, hoje a Amazônia precisa ser reinventada. 
Compartilho em sua homenagem um pequeno trecho, que considero bastante apropriado, da abertura de sua conferência no dia 26 de junho de 2006, quando por ocasião do XXI Simpósio Nacional dos Conselhos de Economia (SINCE), realizado na Cidade de Vitória (ES), recebeu a Comenda Personalidade Econômica do Ano outorgada pelo COFECON: “Serei simples, sucinto e sóbrio como Paulo na segunda carta a Timóteo: Combati o bom combate, completei o percurso, guardei a fé (...) Agora é essencialmente o empenho por uma causa superior, que ela em mim personaliza: a causa dos economistas. Dos bons economistas - competentes. Dos economistas bons - compassivos.”
Mais a frente Armando Mendes continuava, como a leveza de quem também era poeta: “A comenda pessoal, essa eu a incorporo com singeleza ao meu currículo já em preocupante contagem regressiva. E prossigo na incessante caminhada no Caminho do Parauassu ou Grão-Pará, ou Rio Grande das Amazonas. Ao fim e ao cabo a Amazônia (...) Esse, o caminho a palmilhar incansavelmente. Esse, na verdade, o caminho líquido e certo em que é preciso não se deixar levar de bubuia no remanso e muito menos na pororoca. Nele cumpre navegar com uma boa carta de marear, posto que estamos postos sobre o Rio-Mar. Pois navegar – e agora sou eu que vou de bubuia com Pessoa - navegar é preciso (...) Como dizia a seu modo, em outro contexto vivencial, filho meu de nome Aluísio – já por Deus levado faz tempo, Deus seja louvado – mais do que existencialistas tardios precisamos ser ‘insistencialistas’ antenados. A senha é essa: não desistir. Insistir, insistir, insistir".
Quem teve o privilégio de conviver com Armando Mendes e o discernimento de guardar os seus ensinamentos certamente se tornou um cientista social com uma visão mais abrangente e crítica do mundo. Como lição levamos o seu exemplo, não basta interpretar os fenômenos, é preciso intervir e mudar a realidade.
Professor Armando Mendes, muito obrigado! Pela convivência respeitosa e harmoniosa. Pelos diversos ensinamentos. Pelo estímulo a busca por uma trajetória diferente de desenvolvimento para a Amazônia. Pelo exemplo de economista, pai, professor e amigo. Seguimos nós que aqui na bubuia da vida, nos remansos amazônicos, insistindo, insistindo, insistindo. Adeus!


[1] Doutor em Economia pela Unicamp, Professor da UFPA e amazônida. E-mail: ejmcosta@gmail.com 

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