sábado, 15 de março de 2014

Quando chega a hora de cortar o orçamento - Parte I


Por Francisco Ferraz. Publicado em 17/01/2014 no sitio eletrônico de Política para Políticos.

Há momentos em que é preciso “cortar” o orçamento e inibir despesas para “fechar as contas”. Este é sempre um momento difícil para o administrador. Cortar o orçamento é obviamente muito mais difícil do que incrementá-lo. Muitas vezes os cortes precisam ser feitos durante um período de crise, ou imediatamente antes da crise se instalar. Nestas situações, a análise feita é inevitavelmente menos detalhada e minuciosa do que aquela que foi realizada quando se produziu  o orçamento.
Além disso, cortar implica em afetar a vidas das pessoas dentro  e fora da administração: empregos, projetos, prestígio, necessidades básicas, redução da prestação de serviços etc.
O desgaste político, então, é inevitável, a imagem pública sofre, e explicações são exigidas. Por isso, é fundamental conhecer as verdadeiras razões que tornaram o corte necessário, para adotar as medidas corretas, na quantidade certa, de forma a evitar, de um lado,  a prática de uma “mutilação” desnecessária do orçamento, e de outro, cortes que se revelem insuficientes. É preciso encontrar a medida exata para corrigir o problema.

Rever estimativas de receitas

Algumas vezes ocorre que os administradores fazem cortes expressivos nos programas, sem antes rever as estimativas de receita que haviam sido projetadas. Pode acontecer que, as estimativas de despesas foram previstas corretamente, mas as de receita foram calculadas de forma conservadora, abaixo do seu real comportamento. Nestes casos, os cortes poderão se revelar desnecessários. Uma revisão mais realista da receita pode restabelecer o equilíbrio orçamentário.
Esta hipótese não é desprezível. Muitas vezes os funcionários fazem estimativas de receita “a menor” para se garantir. A censura por não alcançar a receita estimada é sempre muito mais grave do que por excedê-la. Sobretudo a imprensa, raramente critica estimativas conservadoras. 

Ajuste(rightsizing) não é o mesmo que redução(downsizing)

A redução generalizada de despesas (downsizing) é uma forma de equilibrar o orçamento num período de crise, procedendo a cortes generalizados. A idéia é que o mesmo pacote de serviços continue sendo provido, embora com menos recursos. Em geral nestas situações, cada departamento ou setor da administração sofre o mesmo percentual de corte. Supõe-se que a crise é passageira, e que tão logo seja superada, as despesas voltem ao padrão anterior.
O ajuste (rightsizing) por outro lado, implica numa análise mais qualitativa da situação. Alcança-se a  meta quantitativa da redução, deslocando recursos entre os programas, de acordo com critérios qualitativos. Assim, programas considerados prioritários são mantidos nos mesmos níveis, “financiados” com os recursos liberados pelo corte de programas menos prioritários. Outra forma de praticar o ajuste é a revisão mais rigorosa da estrutura da administração, aglutinando órgãos assemelhados, extinguindo outros, descontinuando alguns tipos de serviços.
O principio básico do “rightsizing” é que a crise enseja a oportunidade de fazer mudanças de longo prazo, alterações recomendadas e que se consideram permanentes. Trata-se pois de uma ação mais estratégica, e não meramente quantitativa.
Embora os dois conceitos sejam diferentes, eles não são mutuamente excludentes. Muitas vezes faz-se primeiro a redução indiscriminada (downsizing) para depois, passados alguns meses, proceder ao ajuste (rightsizing); outras vezes praticam-se os dois simultâneamente.
 
É aconselhável encarar a crise e a necessidade de fazer cortes no orçamento como uma oportunidade e não como uma catástrofe
 
É sempre aconselhável encarar a crise e a necessidade de fazer cortes no orçamento, como uma oportunidade e não como uma catástrofe. Situações excepcionais legitimam medidas excepcionais e que habitualmente são proteladas. Você pode, então, aproveitar a crise para fazer aquelas reformas que tornarão sua estrutura mais ágil e mais moderna.
A própria gravidade da situação desarma grande parte das resistências que normalmente você encontraria, e retira delas a legitimidade que porventura tenham conseguido adquirir.
Diante de crises as pessoas aceitam que os governantes sejam mais agressivos, que se antecipem ao seu agravamento, que tomem decisões mais duras e até mais antipáticas. Neste sentido, a crise funciona como um escudo para proteger o governante, pelo menos em parte, dos inevitáveis desgastes políticos de suas decisões.

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