Economia, Ideias Sociais e Política

Economistas presos na Venezuela: um alerta sobre a liberdade de expressão econômica

Compartilhe

Recentemente fiquei surpreso ao ler a notícia de que ao menos oito economistas e consultores independentes foram detidos por criticarem as decisões de política econômica do governo Nicolás Maduro e por divulgarem dados que desagradam à ditadura venezuelana. Na manhã de hoje, sábado 19 de julho de 2025, resolvi colocar no papel uma breve reflexão sobre o assunto.

Entre os economistas presos pela ditadura venezuelana está Rodrigo Cabezas (ex‑ministro das Finanças de Hugo Chávez, professor universitário, membro da Academia de Ciências Econômicas da Venezuela). O regime não perdoa nem os seus antigos aliados. Comportamento típico de uma autocracia.


Segundo denúncias, o governo Maduro manipula sistematicamente indicadores econômicos para maquiar a tragédia que assola o país — marcada por desabastecimento, hiperinflação, violência crescente e aumento da pobreza e da insegurança alimentar.


A Constituição venezuelana prevê liberdade de pesquisa e divulgação de informações de interesse público. Na prática, porém, o Banco Central deixou de publicar estatísticas confiáveis desde 2019. Qualquer dado não autorizado que exponha a hiperinflação é visto como “terrorismo econômico”.


A prisão dos economistas representa mais um passo na escalada autoritária de Maduro. Antes deles, juízes e opositores políticos já haviam sido encarcerados; agora, o alvo passou a ser quem ousa revelar a realidade econômica venezuelana.


Ao prender quem mede a crise, o governo mina a capacidade dos cidadãos de compreender sua própria realidade econômica. Além disso, universidades, economistas e pesquisadores passam a se autocensurar para evitar retaliações. E investidores estrangeiros se afastam diante de um ambiente onde a verdade estatística é criminalizada.


Organismos como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos afirmam que a liberdade de pesquisa inclui o direito de coletar, processar e difundir dados — especialmente quando envolvem políticas públicas que afetam milhões de pessoas. Sem dados, não há debate; sem debate, não há a possibilidade do adequado exercício de controle social sobre as políticas públicas e os governantes.


Mas aqui cabe uma pergunta: por que isso importa ao Brasil?


O episódio venezuelano serve de termômetro para medir o ambiente institucional da região. A história mostra que: (i) o desprezo por estatísticas oficiais, ou a sua manipulação, costuma ser um claro sinal de deterioração democrática; (ii) ataques à autonomia universitária, ou de pensamento, abrem caminho para a politização do conhecimento; (iii) narrativas que demonizam especialistas enfraquecem o debate plural e empobrecem as soluções de política pública.


Para terminar, é necessário trazer à baila uma reflexão sobre o papel do economista na defesa da liberdade.


O economista não é apenas um intérprete de gráficos ou dados: é um guardião de fatos. Ao quantificar o cotidiano — inflação, emprego, desigualdade — ele ilumina as consequências das escolhas políticas. Quando um governo torna a mera publicação de estatísticas um ato subversivo, sinaliza que prefere o silêncio às evidências.


No Brasil, já vimos tentativas de maquiar dados de desmatamento, subnotificar números de saúde ou desqualificar projeções de orçamento. Por vezes vemos a tentativa de usar de uma contabilidade macroeconômica criativa para alterar os resultados econômicos, diminuir ou disfarçar o déficit público e o descontrole fiscal. Cada vez que a técnica é empurrada para o canto, perde‑se a bússola que orienta decisões públicas e que alerta a sociedade para o que lhe espera no futuro.


Portanto, a prisão dos colegas venezuelanos não é um drama distante. É um espelho que nos convida a proteger a autonomia das universidades, fortalecer a Lei de Acesso à Informação, requerer transparências nas informações sobre políticas e gastos públicos, e valorizar e proteger institutos como IBGE e IPEA. Defender o direito de medir é defender o direito de escolher melhor. Se calarmos os que interpretam a história e a economia nos números, arriscamos repetir, em solo brasileiro, o mesmo roteiro autoritário.


Liberdade acadêmica e de expressão não é luxo intelectual; é pré‑requisito de uma democracia que queira permanecer de pé.