Cosmovisão Cristã
Fé que pensa, ciência que adora
Nem todo laboratório é frio; às vezes, é um altar. E nem toda sala de aula é mera repartição de conteúdos; não raro, torna-se uma catedral de perguntas, descobertas e testemunho. Neste sábado, 2 de agosto, será celebrado o Dia do Cristão na Ciência, uma iniciativa da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC²) criada em 2017 para promover o encontro entre investigação acadêmica e fé cristã. A data nos convida a reconhecer que pesquisa e ensino, lado a lado, podem render glória a Deus quando abraçam a curiosidade como vocação e o amor ao próximo como missão. O objetivo é simples e audacioso: afirmar que a mente curiosa e o coração adorador não competem, antes se complementam.
A Bíblia legitima essa integração. Em Provérbios 25.2 lemos: “A glória de Deus é encobrir as coisas; a glória dos reis, investigá-las” (ARA). O texto condensa uma orientação quanto a pesquisa e ensino: Deus semeou pistas na criação, convidando-nos a decifrá-las como forma de honrá-lo; depois, pede que compartilhemos essas descobertas com a próxima geração (Dt 6.6-9). Johannes Kepler, ao mapear órbitas planetárias, disse estar “pensando os pensamentos de Deus depois d’Ele”. A famosa frase resume a convicção de que buscar leis naturais é, em última instância, responder ao chamado divino para cultivar e guardar o mundo (Gn 1.28). Assim, cada professor cristão, ao traduzir teorias complexas para jovens mentes curiosas, faz algo semelhante: torna inteligível a ordem criada e convida seus alunos a adorar o Criador da razão.
Contudo, ainda persiste uma equivocada visão sobre o antagonismo entre fé e ciência. Muitos cristãos temem que teorias científicas corroam doutrinas, ao mesmo tempo em que evitam o tema “religião” nas universidades. Vivem numa falsa dicotomia: praticam a sua religiosidade no final de semana na igreja, e durante a semana cultuam a razão, ou algum teórico de preferência. Separam fé e ciência, como se fossem antagônicos.
A história, porém, conta algo diferente. As universidades nasceram em solo cristão; o florescimento do ensino e da pesquisa ocorreu em ambiente permeado por cosmovisão bíblica. Louis Pasteur, considerado o pai da microbiologia moderna, lia a Bíblia a caminho do Instituto Nacional de Pesquisa Científica Universidade Nacional da França. Robert Boyle, um dos fundadores da química moderna, financiava bolsas para estudantes de teologia e era um ofertante liberal para missões. Michael Faraday lecionava na Escola Bíblica Dominical quando não estava pesquisando sobre o eletromagnetismo.
Outros dois cientistas, dentre inúmeros possíveis, merecem referência. Blaise Pascal, um dos mais brilhantes construtores da matemática moderna, no seu livro Pensamentos (1670) tentou matematicamente provar a existência de Deus. Ancorado na lógica do raciocínio desenvolvido concluiu que há mais benefício em apostar na existência de Deus do que no contrário. É desse livro a célebre frase “o coração tem razões que a própria razão desconhece” quando Pascal argumentava pela pequenez da razão humana frente ao Universo criado. Francis Collins, líder do Projeto Genoma Humano, afirma que sua fé oferece o alicerce lógico da ciência e que encontrou em Cristo “fundamento para a racionalidade do universo” (A Linguagem de Deus, 2007).
Como economista não poderia omitir o filósofo moral escocês Adam Smith, o “Pai da Economia”, um cristão calvinista devotado. Aliás, não há como entender a sua célebre Teoria da Mão-Invisível sem correlacioná-la com a crença de que há uma ordem natural transcendental. Smith, seguia a linha do filósofo inglês John Locke, “Pai do Liberalismo Político”, da mesma forma um cristão calvinista praticante. Tanto Locke quanto Smith incorporavam em suas teorias (econômicas, morais e políticas) elementos da cosmovisão cristã. Isso não pode ser dissociado deles. Eles não separavam fé e teoria.
Ao se analisar a religiosidade dos ganhadores dos Prêmios Nobel entre 1901 e 2000, chega-se a um dado relevante. Enquanto os cristãos respondem por apenas 31,2% da população global, 65,4% dos ganhadores do prêmio professam a Cristo como salvador. Os cristãos podem não ser maioria na população mundial. Podem até mesmo ser minoria nas universidades (ou mais discretos), mas não resta dúvida de que as pesquisas por eles desenvolvidas têm relevância e impacto.
Celebrar o Dia do Cristão na Ciência, portanto, é reconhecer três verdades:
- A investigação científica é vocação, serviço e adoração. Toda vez que um pesquisador descobre um biomarcador para malária na Amazônia, ele participa do mandato cultural de promover o florescimento da vida. O professor que explica balanços químicos a adolescentes participa do mesmo mandato cultural de promover o florescimento da criação (Gn 1.28);
- Virtudes cristãs qualificam tanto o laboratório quanto a sala de aula. Entender a pesquisa e o ensino como uma vocação e um ato de adoração faz o pesquisador e o professor assumirem uma postura comprometida com a ética e a excelência. Toda verdade ensinada ou descoberta é verdade de Deus, e cada sala de aula ou laboratório pode tornar-se um altar de gratidão;
- A adoração nasce do assombro intelectual. Cada nova descoberta, cada nova formulação, cada avanço na ciência caminham em direção a uma única verdade: “Os céus proclamam a glória de Deus” (Sl 19.1).
Neste sábado, como mencionado, celebraremos o Dia do Cristão na Ciência. Que tal separarmos alguns minutos para agradecer a Deus pelo dom da curiosidade e, quem sabe, ler um artigo científico ou preparar uma aula inovadora como ato devocional? Não podemos esquecer, ademais, que precisamos orar por nossos estudantes, professores e pesquisadores.
Domingo, no Culto de Adoração da Igreja Primeiro Amor, como ato de celebração do Dia do Cristão na Ciência, pregarei sobre “Fé que pensa, ciência que adora”, aprofundando Provérbios 25.2 e mostrando como investigar e ensinar convergem num ato de adoração. Todos estão convidados.
Obs.: Caso alguém queira conhecer a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC²), recomendo acessar o link: https://www.cristaosnaciencia.org.br.
