Economia, Ideias Sociais e Política
INTOLERÂNCIA SELETIVA DOS QUE SE DIZEM DEMOCRATAS
O vídeo recente de Eduardo Bueno — o “Peninha” — não é apenas infeliz: ele é antidemocrático em sua essência. Ao sugerir que evangélicos não deveriam votar, ou que deveriam “pastar com seus pastores”, o enunciado abandona qualquer compromisso com o pluralismo e escorrega para a desumanização explícita de um grupo religioso numeroso e heterogêneo da sociedade brasileira.
Há, nesse discurso, ao menos três equívocos centrais:
1) Desconhecimento factual sobre o campo evangélico.
O comentário parte da caricatura de que evangélicos seriam massas acríticas, automaticamente guiadas por líderes religiosos. Isso é empiricamente falso. O campo evangélico é institucionalmente plural, com múltiplas denominações, teologias, estruturas de governança e práticas decisórias. Em várias igrejas — especialmente de tradição presbiteriana, congregacional e batista — pastores são eleitos em assembleia, submetidos a conselhos e removíveis por regras estatutárias. Ignorar isso não é opinião: é erro de informação.
2) Confusão entre crítica política e supressão de direitos.
Em uma democracia liberal, pode-se (e deve-se) criticar ideias, discursos e lideranças — inclusive religiosas. O que não é admissível é transformar discordância em interdição de direitos políticos. O sufrágio universal não é prêmio por “ilustração” ideológica; é condição básica da cidadania. Defender a exclusão eleitoral de um grupo por sua fé é flertar com uma lógica autoritária em essência.
3) Hipocrisia democrática.
Há uma contradição flagrante quando atores que se autodeclaram “defensores da democracia” recorrem a linguagem de exclusão, escárnio e animalização. A democracia não se sustenta apenas por procedimentos eleitorais, mas por normas de tolerância, reconhecimento da diversidade e limites éticos do dissenso. Quando esses limites são rompidos, o discurso deixa de ser crítico e passa a ser odioso — ainda que travestido de ironia ou “coragem”.
O episódio revela algo mais profundo: uma intolerância seletiva presente em segmentos que se nutrem do discurso do pluralismo, mas só o aceitam quando o plural concorda com eles. É precisamente esse tipo de postura — que reduz cidadãos a estereótipos e condiciona direitos à adesão ideológica — que corrói a democracia por dentro.
Defender a democracia exige mais do que proclamá-la. Exige aceitar que a cidadania não depende da fé, do voto “certo” ou do alinhamento cultural, mas do reconhecimento igual de direitos. Qualquer projeto político que proponha o contrário, venha de onde vier, não é democrático — é excludente.
