Cosmovisão Cristã, Economia, Ideias Sociais e Política

Caricaturas, Manipulações e a Ameaça Evangélica: O que está por trás de Apocalipse nos Trópicos?

Compartilhe

Ontem à noite, em 19 de julho de 2025, assisti ao recém-lançado documentário “Apocalipse nos Trópicos”, dirigido por Pietra Costa, conhecida pelo seu trabalho anterior, “Democracia em Vertigem”. Como economista, cientista social e teólogo evangélico, fui levado a assistir por interesse acadêmico, religioso e pessoal. Indiscutivelmente, o crescimento do segmento evangélico no Brasil ampliou a sua influência política no cenário nacional; um fenômeno que merece ser mais bem estudado e compreendido. Entretanto, dado o histórico da diretora, entrei na experiência com cautela.

 

Meu receio inicial baseava-se especialmente em dois pontos. Primeiro, “Democracia em Vertigem”, o seu documentário anterior, demonstrou um evidente viés ideológico, construindo uma narrativa altamente tendenciosa sobre o impeachment de Dilma Rousseff. Foi mais uma peça político-partidária do que uma análise histórica séria, omitindo fatos e distorcendo eventos para sustentar uma narrativa predefinida. Segundo, estava claro desde o início o propósito subjacente em “Apocalipse nos Trópicos”: questionar a legitimidade da influência evangélica na política brasileira, especialmente visando às eleições de 2026.

 

O documentário de Pietra Costa, infelizmente, confirma essas suspeitas iniciais. Ao assistir, constatei um profundo desconhecimento sobre o universo evangélico em sua complexidade, pluralidade, descentralização e fundamentos religiosos diversos. O que poderia ter sido uma análise rica e esclarecedora acabou reduzido a uma caricatura simplista, destinada a gerar alarmismo e ampliar o preconceito.

 

Entretanto, apesar dessas falhas, o documentário apresenta inadvertidamente um alerta importante para os próprios evangélicos. Fica claro que o crescimento da influência política dos evangélicos incomoda profundamente o movimento progressista e o projeto de poder associado ao lulopetismo. Ademais, torna-se perceptível nas entrelinhas um movimento orquestrado para isolar, dividir e anular a força do segmento em antecipação às eleições de 2026. O temor não está apenas relacionado à eleição presidencial, mas especialmente ao crescimento da representação evangélica no parlamento (Congresso Nacional). Finalmente, fica nítida a estratégia de cooptar lideranças religiosas ou infiltrar militantes para afastar os evangélicos de pautas tradicionalmente conservadoras.

 

Um outro importante equívoco do documentário é a confusão proposital entre conceitos como Estado laico, teocracia e áreas legítimas de influência social. Muitos cristãos protestantes entendem claramente que a Bíblia não é apenas um guia espiritual pessoal, mas um manual que oferece princípios sólidos para a construção de nações mais justas, pacíficas e prósperas. Ignorar essa dimensão social e pública do evangelho significa desconhecer profundamente a amplitude e relevância da fé cristã.

 

A tentativa recorrente de separar política e religião ignora uma realidade fundamental: todos possuem uma cosmovisão que molda seus valores e ações. A fé, embora vivida individualmente, expressa-se naturalmente na esfera pública através dos valores e princípios defendidos pelos indivíduos e comunidades religiosas.

 

Em síntese, “Apocalipse nos Trópicos” revela-se, infelizmente, mais uma peça político-ideológica de um projeto de poder que percebe o cristianismo, tanto católico quanto protestante, como ameaça. O próprio documentário evidencia isso claramente em sua abordagem enviesada e intencionalmente restritiva.

 

Encerrando esta reflexão, lembro as palavras certeiras do pregador batista Charles Spurgeon, crítico contundente do socialismo e do marxismo, ao alertar sobre os perigos de tais ideologias que frequentemente suprimem a liberdade religiosa, econômica e pessoal em nome de uma utópica igualdade. Spurgeon já alertava em seu tempo o que hoje vivenciamos claramente: ideologias que buscam o controle estatal absoluto sempre verão na fé genuína um obstáculo à sua pretensão de domínio total.