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Hoje ainda é véspera. A cidade segue seu roteiro habitual, e nela a conversa fiada do “não adianta” e o silêncio bem treinado do “melhor não se meter”. Mas há uma coisa diferente no ar — não é notícia, é um incômodo. Um desses incômodos que não cabem na gaveta das rotinas.

 

Amanhã, 1º de março, tem gente indo às ruas em muitas cidades. Em Belém, 8h30, na escadinha da Presidente Vargas. E antes que alguém pergunte “vai ter pauta?”, “vai ter liderança?”, “vai ter consenso?”, eu respondo com a única honestidade possível: vai ter gente. E, hoje, isso já é uma pauta.

 

Porque a verdadeira pergunta não é “por que ir?”. A pergunta é: por que ficamos?

O Brasil virou o país em que a indignação precisa de autorização — e, se possível, de carimbo. A corrupção virou paisagem: todo mundo reclama, todo mundo lamenta, e quase todo mundo continua vivendo como se fosse um fenômeno meteorológico, tipo chuva forte no inverno. Acontece. Molha. Passa. E seguimos.

 

Só que não passa.

 

Há um tipo de cansaço que não é físico; é cansaço moral. É quando a pessoa vai se acostumando ao absurdo como quem se acostuma ao barulho do trânsito. No começo incomoda. Depois vira “normal”. E, quando vira normal, o país entra naquela fase perigosa em que o escândalo não choca; apenas confirma.

 

E aí chegamos ao ponto: será que o brasileiro perdeu a capacidade de se indignar — ou será que aprendeu a ser cúmplice por omissão?

A omissão é confortável, porque dá a sensação de inocência: “eu não tenho nada a ver com isso”. Só que a omissão, na vida pública, tem um problema: ela não é neutra. Ela é voto silencioso a favor do que já está aí.

 

Amanhã é, portanto, um teste simples — quase ingênuo — de caráter cívico:

se eu acredito que há algo errado, eu ajo ou eu apenas assisto?

 

Ir às ruas amanhã não é “pedir ruptura”. É exatamente o contrário: é lembrar que democracia não é só urna; é limite, responsabilidade, freio e contrapeso, respeito às regras, previsibilidade do direito, instituições que se contêm a si mesmas. Quando as pessoas passam a sentir que as instituições se esticam demais, que a régua muda conforme o alvo, que a exceção vira método, nasce o dever de dizer: chega!

 

Um “chega!” de quem quer viver num país em que a lei não seja um instrumento de perseguição, em que a corrupção não seja um pedágio, em que a liberdade não seja tolerada apenas quando concorda, em que o Estado de Direito não seja uma expressão bonita repetida enquanto a prática vai por outro caminho.

 

Amanhã, eu vou às ruas com a minha família porque há coisas que não se ensinam por discurso, mas por presença. Porque filho aprende mais com o que o pai faz do que com o que o pai posta. Porque, se um dia eu quiser falar de liberdade, eu preciso ter sido visto defendendo-a quando custava alguma coisa — nem que seja uma manhã de domingo, um sol de Belém, e a coragem de aparecer.

 

Amanhã, na escadinha, não estaremos todos iguais. Há muitas divergências. E ainda bem.

Mas estaremos unidos por uma ideia mínima, que deveria ser óbvia e virou “polêmica”: um país decente não pede silêncio; pede vigilância. Um país decente não trata indignação como excesso; trata como prevenção.

 

Então, se você me perguntar “por que devo ir às ruas amanhã?”, eu devolvo com ironia, mas sem brincadeira: porque o Brasil está cheio de especialistas em reclamar e escasso de cidadãos dispostos a comparecer. Porque o que está em jogo não é um partido, nem uma pessoa, nem uma moda política — é o hábito de aceitar o inaceitável.

 

Amanhã é 1º de março.

E ir às ruas é, talvez, o último suspiro de quem ainda sonha com uma democracia pujante, com liberdade real, e com um Estado que se submeta às suas próprias regras.

 

Quem não tem indignação, ao menos que tenha vergonha.

E quem tem indignação — que leve o corpo onde já levou a opinião.

 

Nos vemos na rua.

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Hoje pela manhã, ao deixar meu filho no colégio, liguei o rádio do carro. Entre uma notícia e outra, veio o dado: segundo pesquisa do Instituto Atlas, 54% dos brasileiros consideram a corrupção o maior problema do país. Cinquenta e quatro por cento. Uma maioria moral.

 

Desliguei o rádio com aquela sensação estranha de que, se a maioria concorda sobre o diagnóstico, por que a doença persiste?

 

A corrupção não é um fenômeno meteorológico. Não cai do céu como chuva de verão. Ela tem CPF, partido, palanque, campanha. E, sobretudo, tem voto. Os políticos que hoje ocupam cargos públicos não surgiram por geração espontânea. Foram escolhidos. Foram defendidos. Foram eleitos e reeleitos.

 

Há algo de paradoxal nisso: a mesma população que condena a corrupção nas pesquisas a legitima nas urnas.

 

Ao chegar em casa, deparei-me com uma cena curiosa. Tenho no quintal um viveiro grande, antigo, que está desativado há muito tempo. A porta permanece aberta, as grades já não cumprem função alguma. E, no entanto, lá dentro estava um pássaro preto — grande, elegante, inquieto. Não sei de onde veio. Talvez tenha sido criado em cativeiro um dia e, ao ver a estrutura, reconheceu nela algo familiar.

 

O mais intrigante: a porta estava escancarada.

 

Ainda assim, o pássaro permanecia lá dentro, saltando de poleiro em poleiro, como se as grades invisíveis fossem mais fortes que a liberdade concreta diante dele.

 

Fiquei olhando a cena por alguns minutos. Ele podia sair. Bastava um voo curto. Não havia cadeado. Não havia armadilha. Só hábito.

 

Talvez seja essa a imagem mais fiel do nosso tempo. Criticamos o sistema, denunciamos os vícios, apontamos os escândalos — mas, quando chega a hora decisiva, voltamos para dentro da gaiola. Reelegemos os mesmos nomes, repetimos os mesmos discursos, justificamos o injustificável com o argumento do “mal menor”, do “é o que temos”, do “sempre foi assim”.

 

A porta da política brasileira está aberta. Chama-se voto. Chama-se responsabilidade. Chama-se coerência entre o que dizemos nas pesquisas (ou nas redes sociais) e o que fazemos nas urnas.

 

Mas, como o pássaro preto, insistimos em permanecer no espaço que nos aprisiona.

 

Não é a gaiola que nos mantém presos. É a familiaridade com ela.

 

E talvez essa seja a forma mais sofisticada de cativeiro: quando a liberdade está ao alcance das asas, mas o medo — ou o costume — nos impede de voar.

 

Eduardo Costa. Belém, 27/02/2026

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O vídeo recente de Eduardo Bueno — o “Peninha” — não é apenas infeliz: ele é antidemocrático em sua essência. Ao sugerir que evangélicos não deveriam votar, ou que deveriam “pastar com seus pastores”, o enunciado abandona qualquer compromisso com o pluralismo e escorrega para a desumanização explícita de um grupo religioso numeroso e heterogêneo da sociedade brasileira.

 

Há, nesse discurso, ao menos três equívocos centrais:

 

1) Desconhecimento factual sobre o campo evangélico.

O comentário parte da caricatura de que evangélicos seriam massas acríticas, automaticamente guiadas por líderes religiosos. Isso é empiricamente falso. O campo evangélico é institucionalmente plural, com múltiplas denominações, teologias, estruturas de governança e práticas decisórias. Em várias igrejas — especialmente de tradição presbiteriana, congregacional e batista — pastores são eleitos em assembleia, submetidos a conselhos e removíveis por regras estatutárias. Ignorar isso não é opinião: é erro de informação.

 

2) Confusão entre crítica política e supressão de direitos.

Em uma democracia liberal, pode-se (e deve-se) criticar ideias, discursos e lideranças — inclusive religiosas. O que não é admissível é transformar discordância em interdição de direitos políticos. O sufrágio universal não é prêmio por “ilustração” ideológica; é condição básica da cidadania. Defender a exclusão eleitoral de um grupo por sua fé é flertar com uma lógica autoritária em essência.

 

3) Hipocrisia democrática.

Há uma contradição flagrante quando atores que se autodeclaram “defensores da democracia” recorrem a linguagem de exclusão, escárnio e animalização. A democracia não se sustenta apenas por procedimentos eleitorais, mas por normas de tolerância, reconhecimento da diversidade e limites éticos do dissenso. Quando esses limites são rompidos, o discurso deixa de ser crítico e passa a ser odioso — ainda que travestido de ironia ou “coragem”.

 

O episódio revela algo mais profundo: uma intolerância seletiva presente em segmentos que se nutrem do discurso do pluralismo, mas só o aceitam quando o plural concorda com eles. É precisamente esse tipo de postura — que reduz cidadãos a estereótipos e condiciona direitos à adesão ideológica — que corrói a democracia por dentro.

 

Defender a democracia exige mais do que proclamá-la. Exige aceitar que a cidadania não depende da fé, do voto “certo” ou do alinhamento cultural, mas do reconhecimento igual de direitos. Qualquer projeto político que proponha o contrário, venha de onde vier, não é democrático — é excludente.

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Na tarde de uma terça-feira qualquer (30/09/25), sem grandes manchetes nem alardes, a Comissão Mista de Orçamento aprovou um gesto simbólico — e caro. O Fundo Eleitoral, que já era bilionário, saltará para R$ 4,9 bilhões em 2026. É quase cinco bilhões de reais, dinheiro público reservado para abastecer campanhas eleitorais em todo o país.

Chama-se “Fundo Especial de Financiamento de Campanha”, mas poderia muito bem se chamar Fatura da Democracia. A cada eleição, ela chega à mesa do contribuinte, que paga sem ser consultado. A justificativa é nobre: reduzir a influência de empresas privadas, evitar o caixa dois. Mas o efeito prático é outro: transfere-se a conta para quem não tem escolha, enquanto se reforça a distância entre eleitos e eleitores.

Em tempos de filas no SUS, escolas com teto caindo e estradas esburacadas, a decisão soa como ironia. Para hospitais, sempre falta. Para merenda escolar, nunca há verba suficiente. Para campanhas políticas, sobra.

Douglass North lembrava que instituições revelam quem realmente manda em uma sociedade. O Fundão de 2026 mostra isso com clareza: o Estado brasileiro continua sendo moldado mais para proteger a elite política do que para atender às necessidades da população.

E assim seguimos. Democracia, no papel, é governo do povo. No Brasil real, é o povo bancando a conta — bilionária — de quem governa.

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Mariah Carey no Rio Guamá. Mas… e os nossos problemas reais?

 

A notícia de que a mineradora Vale gastou 30 milhões de reais na construção de um palco temporário para um show internacional no Rio Guamá, em Belém na última quarta-feira (19/09), levanta uma pergunta urgente: É esse o tipo de “compensação social” que nossa região realmente precisa?

 

A Amazônia possui inúmeros problemas historicamente negligenciados: saneamento, saúde pública, segurança, educação, mobilidade urbana… Diante disso, é legítimo questionar: quem se beneficia de um show milionário? E mais: qual é o legado concreto que ele deixa para a população local?

 

Com os mesmos 30 milhões de reais, poderiam ser construídas dezenas de unidades de saúde, escolas, espaços comunitários, redes de abastecimento de água, projetos de formação profissional ou habitação popular. Poderiam ainda ser financiadas pesquisas e inovações sociais, como as que são feitas em instituições como a UFPA, com potencial para transformar estruturalmente a vida das pessoas.

 

A Vale lucra bilhões com a exploração de recursos naturais da nossa região. Sua responsabilidade social deveria ser proporcional ao impacto de sua presença — e isso significa mitigar desigualdades históricas, e não simplesmente produzir grandes eventos para ganhar manchetes ou “melhorar a imagem”.

 

Não se trata de ser contra a cultura ou grandes shows. Trata-se de prioridade. E, nesse momento, os amazônidas precisam não é de um palco, mas de dignidade.

 

Precisamos discutir com seriedade: O que é uma compensação social legítima? Por que seguimos romantizando gestos de “filantropia empresarial” que não resolvem os problemas de base? Quem está decidindo como o dinheiro deve ser investido — e com qual participação da comunidade?

 

O espetáculo dura algumas horas. A desigualdade, infelizmente, dura gerações.

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Nem todo laboratório é frio; às vezes, é um altar. E nem toda sala de aula é mera repartição de conteúdos; não raro, torna-se uma catedral de perguntas, descobertas e testemunho. Neste sábado, 2 de agosto, será celebrado o Dia do Cristão na Ciência, uma iniciativa da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC²) criada em 2017 para promover o encontro entre investigação acadêmica e fé cristã. A data nos convida a reconhecer que pesquisa e ensino, lado a lado, podem render glória a Deus quando abraçam a curiosidade como vocação e o amor ao próximo como missão. O objetivo é simples e audacioso: afirmar que a mente curiosa e o coração adorador não competem, antes se complementam.

A Bíblia legitima essa integração. Em Provérbios 25.2 lemos: “A glória de Deus é encobrir as coisas; a glória dos reis, investigá-las” (ARA). O texto condensa uma orientação quanto a pesquisa e ensino: Deus semeou pistas na criação, convidando-nos a decifrá-las como forma de honrá-lo; depois, pede que compartilhemos essas descobertas com a próxima geração (Dt 6.6-9). Johannes Kepler, ao mapear órbitas planetárias, disse estar “pensando os pensamentos de Deus depois d’Ele”. A famosa frase resume a convicção de que buscar leis naturais é, em última instância, responder ao chamado divino para cultivar e guardar o mundo (Gn 1.28). Assim, cada professor cristão, ao traduzir teorias complexas para jovens mentes curiosas, faz algo semelhante: torna inteligível a ordem criada e convida seus alunos a adorar o Criador da razão.


Contudo, ainda persiste uma equivocada visão sobre o antagonismo entre fé e ciência. Muitos cristãos temem que teorias científicas corroam doutrinas, ao mesmo tempo em que evitam o tema “religião” nas universidades. Vivem numa falsa dicotomia: praticam a sua religiosidade no final de semana na igreja, e durante a semana cultuam a razão, ou algum teórico de preferência. Separam fé e ciência, como se fossem antagônicos.


A história, porém, conta algo diferente. As universidades nasceram em solo cristão; o florescimento do ensino e da pesquisa ocorreu em ambiente permeado por cosmovisão bíblica. Louis Pasteur, considerado o pai da microbiologia moderna, lia a Bíblia a caminho do Instituto Nacional de Pesquisa Científica Universidade Nacional da França. Robert Boyle, um dos fundadores da química moderna, financiava bolsas para estudantes de teologia e era um ofertante liberal para missões. Michael Faraday lecionava na Escola Bíblica Dominical quando não estava pesquisando sobre o eletromagnetismo.


Outros dois cientistas, dentre inúmeros possíveis, merecem referência. Blaise Pascal, um dos mais brilhantes construtores da matemática moderna, no seu livro Pensamentos (1670) tentou matematicamente provar a existência de Deus. Ancorado na lógica do raciocínio desenvolvido concluiu que há mais benefício em apostar na existência de Deus do que no contrário. É desse livro a célebre frase “o coração tem razões que a própria razão desconhece” quando Pascal argumentava pela pequenez da razão humana frente ao Universo criado. Francis Collins, líder do Projeto Genoma Humano, afirma que sua fé oferece o alicerce lógico da ciência e que encontrou em Cristo “fundamento para a racionalidade do universo” (A Linguagem de Deus, 2007).


Como economista não poderia omitir o filósofo moral escocês Adam Smith, o “Pai da Economia”, um cristão calvinista devotado. Aliás, não há como entender a sua célebre Teoria da Mão-Invisível sem correlacioná-la com a crença de que há uma ordem natural transcendental. Smith, seguia a linha do filósofo inglês John Locke, “Pai do Liberalismo Político”, da mesma forma um cristão calvinista praticante. Tanto Locke quanto Smith incorporavam em suas teorias (econômicas, morais e políticas) elementos da cosmovisão cristã. Isso não pode ser dissociado deles. Eles não separavam fé e teoria.


Ao se analisar a religiosidade dos ganhadores dos Prêmios Nobel entre 1901 e 2000, chega-se a um dado relevante. Enquanto os cristãos respondem por apenas 31,2% da população global, 65,4% dos ganhadores do prêmio professam a Cristo como salvador. Os cristãos podem não ser maioria na população mundial. Podem até mesmo ser minoria nas universidades (ou mais discretos), mas não resta dúvida de que as pesquisas por eles desenvolvidas têm relevância e impacto.


Celebrar o Dia do Cristão na Ciência, portanto, é reconhecer três verdades:


  • A investigação científica é vocação, serviço e adoração. Toda vez que um pesquisador descobre um biomarcador para malária na Amazônia, ele participa do mandato cultural de promover o florescimento da vida. O professor que explica balanços químicos a adolescentes participa do mesmo mandato cultural de promover o florescimento da criação (Gn 1.28);

 

  • Virtudes cristãs qualificam tanto o laboratório quanto a sala de aula. Entender a pesquisa e o ensino como uma vocação e um ato de adoração faz o pesquisador e o professor assumirem uma postura comprometida com a ética e a excelência. Toda verdade ensinada ou descoberta é verdade de Deus, e cada sala de aula ou laboratório pode tornar-se um altar de gratidão;

 

  • A adoração nasce do assombro intelectual. Cada nova descoberta, cada nova formulação, cada avanço na ciência caminham em direção a uma única verdade: “Os céus proclamam a glória de Deus” (Sl 19.1).


Neste sábado, como mencionado, celebraremos o Dia do Cristão na Ciência. Que tal separarmos alguns minutos para agradecer a Deus pelo dom da curiosidade e, quem sabe, ler um artigo científico ou preparar uma aula inovadora como ato devocional? Não podemos esquecer, ademais, que precisamos orar por nossos estudantes, professores e pesquisadores.


Domingo, no Culto de Adoração da Igreja Primeiro Amor, como ato de celebração do Dia do Cristão na Ciência, pregarei sobre “Fé que pensa, ciência que adora”, aprofundando Provérbios 25.2 e mostrando como investigar e ensinar convergem num ato de adoração. Todos estão convidados.

 

Obs.: Caso alguém queira conhecer a Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC²), recomendo acessar o link: https://www.cristaosnaciencia.org.br.

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O Brasil é hoje o único país que se recusa a negociar de forma consistente com os Estados Unidos diante do tarifaço de Trump. Outras nações, como União Europeia, Reino Unido, México, China, Índia, Japão, Indonésia, Filipinas, Vietnã e Malásia, construíram acordos mediante avanços diplomáticos.

Aqui se revela um perigoso paradoxo político. Enquanto governos ao redor do mundo mitigaram perdas por meio do diálogo diplomático, o Brasil, em contraste, optou deliberadamente por um enredo ideológico de confronto, apostando em uma polarização internacional que evoca traços de radicalização do tipo bolivariano-chavista: o “nós contra eles”. Uma estratégia de sobrevivência política diante de baixa entrega de resultados e da crescente percepção negativa da sociedade em relação ao governo.


Estamos testemunhando a inauguração de uma nova fase da diplomacia brasileira, marcada pela ruptura com antigos parceiros políticos e econômicos. Uma diplomacia performática-ideológica que, ao não demonstrar boa-fé na mesa de negociação, conduz o país a um isolamento estratégico prejudicial. É necessário mudar a lógica, negociar não é capitular — é proteger com dignidade os interesses nacionais.


Reduzida a um teatro retórico, essa diplomacia fragiliza o Brasil internamente e compromete nossa capacidade de resposta aos desafios externos. Enquanto outros países praticam uma diplomacia focada em resultados concretos, o Brasil insiste em um discurso beligerante que é perigosamente inconsequente. Nessa lógica de confrontação externa como mecanismo de sustentação política interna, sacrifica-se a segurança econômica da nação.


É hora de romper com essa narrativa. Negociar precisa ser reconhecido como um ato estratégico de defesa nacional — e não como sinal de fraqueza ou derrota moral. Afinal, o maior risco reside em permanecer preso ao embate retórico enquanto os setores produtivos do país definham diante de um mundo que continua a dialogar ante ao novo paradigma geopolítico global.

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Hoje, 25 de julho, é o Dia do Escritor.

Desde fevereiro, venho mergulhando mais fundo na arte da escrita literária, como aluno do Curso de Formação de Escritores da Metamorfose, venho exercitando escuta, leitura e prática — não apenas para aprimorar a técnica, mas para aprofundar o olhar sobre o mundo, as pessoas e sobre mim mesmo.


Escrever é um ato de construção: de linguagem, de sentido, de memória. Para alguém habituado ao universo, por vezes hermético, da economia e da linguagem acadêmica, escrever literatura tem sido como atravessar uma ponte: do rigor analítico à abertura sensível da condição humana. A palavra deixa de ser apenas ferramenta de explicação, para tornar-se espaço de revelação do sentimento, do sentido, da existência e da eternidade.


Do esboço inicial de um primeiro romance, passando pelos primeiros contos, por crônicas e ensaios, sigo escrevendo, mas agora movido pelo desejo de tocar a alma das pessoas, de estabelecer uma diferente forma de conexão.


Escrever não é apenas um dom. É um chamado. Um caminho que adentrei com gratidão.

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A economia é, por natureza, expectacional: investimentos, contratações e inovações são decisões tomadas hoje à luz de expectativas sobre regras futuras, estabilidade institucional e previsibilidade regulatória. Quando esse horizonte se turva por choques políticos e jurídicos, o custo de oportunidade de investir se eleva, projetos são postergados e o crescimento potencial da economia é comprimido.

 

No Brasil recente, além dos conflitos reiterados entre Executivo e Legislativo — derrubadas de vetos, PDLs relâmpagos e aprovados na madrugada, barganhas orçamentárias de última hora —, avolumou-se um foco adicional de incerteza: a percepção de que o Poder Judiciário, em especial o Supremo Tribunal Federal (STF), tem extrapolado sua função contramajoritária e de guarda da Constituição, assumindo um protagonismo que tensiona o equilíbrio entre os Poderes.

 

Essa crítica se concentra, sobretudo, no uso recorrente de decisões monocráticas para suspender leis e decretos, modular alíquotas tributárias ou alterar cronogramas de políticas públicas sem o crivo prévio do colegiado, ferindo, segundo muitos juristas e economistas, o princípio da colegialidade e, em alguns casos, o devido processo legal, entendido aqui como a soma de contraditório, ampla defesa e observância de ritos formais previstos em lei.

 

Soma-se a isso o diagnóstico de “ativismo judicial” excessivo: a Corte, ao invés de limitar-se a sanar inconstitucionalidades claras ou lacunas normativas objetivas, estaria legislando na prática, definindo políticas públicas em detalhe, criando obrigações positivas ao Executivo e reescrevendo textos legais por meio de interpretações extensivas.

 

O resultado, do ponto de vista econômico, é a ampliação do “ruído institucional”: a sensação de que regras fiscais, tributárias ou regulatórias podem mudar abruptamente, seja por ofensivas legislativas casuísticas, seja por decisões judiciais liminares e personalizadas. Tal ruído eleva o prêmio de risco exigido pelo capital, pressiona a curva de juros, encarece a rolagem da dívida pública e desestimula projetos de longo prazo, sobretudo em setores intensivos em capital e submetidos a marcos regulatórios complexos — infraestrutura, saneamento, energia e telecomunicações. Na linguagem de Keynes, reprime-se o “animal spirits”; na perspectiva de Knight, a incerteza não mensurável passa a dominar o risco calculável; empiricamente, choques de incerteza política reduzem o volume de investimentos e a geração de emprego na economia.

 

Essa crítica ao Judiciário não ignora seu papel essencial como órgão de controle de constitucionalidade e árbitro de conflitos federativos. Democracias consolidadas dependem de tribunais independentes para conter maiorias eventuais e proteger direitos fundamentais. O problema emerge quando o exercício dessa função se converte em rotina substitutiva das instâncias políticas, gerando o que alguns autores chamam de “juristocracia”: uma transferência silenciosa de soberania decisória do Parlamento e do Executivo para cortes que não possuem accountability eleitoral direto.

 

O recurso frequente a decisões monocráticas — às vezes mantidas por longos períodos, sem apreciação célere pelo plenário — agrava a percepção de voluntarismo decisório. Ademais, críticas têm se acumulado quanto ao não cumprimento estrito do devido processo legal em temas de alta sensibilidade política e econômica.

 

Esse ambiente de incerteza jurídica, para além do debate técnico, desagua em polarização política intensa e, mais recentemente, em discussões sobre a viabilidade — e legitimidade — de acionar instrumentos extremos como o impeachment de ministros do STF. O simples fato de tal debate ganhar corpo já sinaliza deterioração da confiança mútua entre Poderes, e da própria sociedade para com a Corte, e amplia a percepção de risco institucional pelos agentes econômicos, nacionais e estrangeiros.

 

O efeito macroeconômico desse quadro é concreto. Em primeiro lugar, o custo de capital sobe: investidores demandam prêmios mais altos, refletindo-se em juros reais elevados, o que retroalimenta o problema fiscal ao encarecer a dívida pública.

 

Em segundo lugar, o planejamento empresarial de longo prazo é corroído: cláusulas contratuais precisam prever múltiplos cenários regulatórios, seguros tornam-se mais caros, e projetos com paybacks extensos perdem atratividade.

 

Em terceiro lugar, a própria agenda de reformas — tributária, administrativa, federativa — sofre: textos são desidratados no Parlamento por antecipação de judicialização; e os já aprovados, podem ser contestados e modulados, atrasando sua implementação e reduzindo a sua credibilidade e seus efeitos.

 

Importa distinguir, contudo, conflito saudável de crise institucional. Tensões entre Poderes são inerentes a uma democracia contemporânea; o risco reside na paralisia decisória ou na ciclotimia normativa — mudanças bruscas e frequentes que sinalizam ausência de regras claras e estáveis. Quando cada ator institucional atua na fronteira (ou além) de suas competências buscando resultados substantivos imediatos, sacrifica-se a previsibilidade, que é valor instrumental caro à economia.

 

Do ponto de vista empresarial, a resposta racional é incorporar a gestão do risco político-regulatório ao núcleo da estratégia corporativa. Isso implica: monitoramento contínuo da agenda legislativa e judicial; elaboração de contratos com cláusulas robustas de reequilíbrio econômico-financeiro; diversificação de portfólios e mercados para diluir choques setoriais ou regionais; fortalecimento de estruturas de compliance; e relações institucionais transparentes.

 

No plano macroinstitucional, a mitigação do ruído exige reformas que reduzam a discricionariedade e aumentem a previsibilidade: regras fiscais automáticas e inteligíveis; marcos regulatórios com agências independentes e prazos decisórios definidos; restrições procedimentais ao uso prolongado de decisões monocráticas (como quóruns mínimos e caducidade automática se não houver referendo colegiado); avaliações de impacto regulatório e revisões periódicas de normas para diminuir o estoque de legislação obsoleta; e fóruns permanentes de coordenação interinstitucional para evitar a judicialização de temas técnicos.

 

Não se trata de limitar a atuação legítima do Judiciário, mas de reequilibrá-la dentro de parâmetros que preservem a segurança jurídica e o devido processo, sem transformar a Corte em legislador positivo permanente.

 

Em síntese, a incerteza política e a insegurança jurídica — alimentadas tanto por conflitos Executivo–Legislativo quanto por um ativismo judicial percebido como excessivo — constituem um imposto silencioso sobre o investimento e a inovação no Brasil.

 

Superar esse obstáculo demanda maturidade institucional, compromisso dos Três Poderes com previsibilidade e transparência e um pacto mínimo sobre as “regras do jogo” da política econômica. Em um mundo já marcado por choques geopolíticos e volatilidade macro, reduzir o ruído institucional doméstico pode ser a diferença entre capturar oportunidades de crescimento ou ver o país prisioneiro de um ciclo de crise política-institucional permanente, baixo investimento e estagnação. Previsibilidade é sinônimo de de clareza procedimental e respeito aos limites constitucionais de cada Poder — condição necessária para liberar o “animal spirit” e alavancar a nossa economia.

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Ontem à noite, em 19 de julho de 2025, assisti ao recém-lançado documentário “Apocalipse nos Trópicos”, dirigido por Pietra Costa, conhecida pelo seu trabalho anterior, “Democracia em Vertigem”. Como economista, cientista social e teólogo evangélico, fui levado a assistir por interesse acadêmico, religioso e pessoal. Indiscutivelmente, o crescimento do segmento evangélico no Brasil ampliou a sua influência política no cenário nacional; um fenômeno que merece ser mais bem estudado e compreendido. Entretanto, dado o histórico da diretora, entrei na experiência com cautela.

 

Meu receio inicial baseava-se especialmente em dois pontos. Primeiro, “Democracia em Vertigem”, o seu documentário anterior, demonstrou um evidente viés ideológico, construindo uma narrativa altamente tendenciosa sobre o impeachment de Dilma Rousseff. Foi mais uma peça político-partidária do que uma análise histórica séria, omitindo fatos e distorcendo eventos para sustentar uma narrativa predefinida. Segundo, estava claro desde o início o propósito subjacente em “Apocalipse nos Trópicos”: questionar a legitimidade da influência evangélica na política brasileira, especialmente visando às eleições de 2026.

 

O documentário de Pietra Costa, infelizmente, confirma essas suspeitas iniciais. Ao assistir, constatei um profundo desconhecimento sobre o universo evangélico em sua complexidade, pluralidade, descentralização e fundamentos religiosos diversos. O que poderia ter sido uma análise rica e esclarecedora acabou reduzido a uma caricatura simplista, destinada a gerar alarmismo e ampliar o preconceito.

 

Entretanto, apesar dessas falhas, o documentário apresenta inadvertidamente um alerta importante para os próprios evangélicos. Fica claro que o crescimento da influência política dos evangélicos incomoda profundamente o movimento progressista e o projeto de poder associado ao lulopetismo. Ademais, torna-se perceptível nas entrelinhas um movimento orquestrado para isolar, dividir e anular a força do segmento em antecipação às eleições de 2026. O temor não está apenas relacionado à eleição presidencial, mas especialmente ao crescimento da representação evangélica no parlamento (Congresso Nacional). Finalmente, fica nítida a estratégia de cooptar lideranças religiosas ou infiltrar militantes para afastar os evangélicos de pautas tradicionalmente conservadoras.

 

Um outro importante equívoco do documentário é a confusão proposital entre conceitos como Estado laico, teocracia e áreas legítimas de influência social. Muitos cristãos protestantes entendem claramente que a Bíblia não é apenas um guia espiritual pessoal, mas um manual que oferece princípios sólidos para a construção de nações mais justas, pacíficas e prósperas. Ignorar essa dimensão social e pública do evangelho significa desconhecer profundamente a amplitude e relevância da fé cristã.

 

A tentativa recorrente de separar política e religião ignora uma realidade fundamental: todos possuem uma cosmovisão que molda seus valores e ações. A fé, embora vivida individualmente, expressa-se naturalmente na esfera pública através dos valores e princípios defendidos pelos indivíduos e comunidades religiosas.

 

Em síntese, “Apocalipse nos Trópicos” revela-se, infelizmente, mais uma peça político-ideológica de um projeto de poder que percebe o cristianismo, tanto católico quanto protestante, como ameaça. O próprio documentário evidencia isso claramente em sua abordagem enviesada e intencionalmente restritiva.

 

Encerrando esta reflexão, lembro as palavras certeiras do pregador batista Charles Spurgeon, crítico contundente do socialismo e do marxismo, ao alertar sobre os perigos de tais ideologias que frequentemente suprimem a liberdade religiosa, econômica e pessoal em nome de uma utópica igualdade. Spurgeon já alertava em seu tempo o que hoje vivenciamos claramente: ideologias que buscam o controle estatal absoluto sempre verão na fé genuína um obstáculo à sua pretensão de domínio total.

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