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Recentemente fiquei surpreso ao ler a notícia de que ao menos oito economistas e consultores independentes foram detidos por criticarem as decisões de política econômica do governo Nicolás Maduro e por divulgarem dados que desagradam à ditadura venezuelana. Na manhã de hoje, sábado 19 de julho de 2025, resolvi colocar no papel uma breve reflexão sobre o assunto.

Entre os economistas presos pela ditadura venezuelana está Rodrigo Cabezas (ex‑ministro das Finanças de Hugo Chávez, professor universitário, membro da Academia de Ciências Econômicas da Venezuela). O regime não perdoa nem os seus antigos aliados. Comportamento típico de uma autocracia.


Segundo denúncias, o governo Maduro manipula sistematicamente indicadores econômicos para maquiar a tragédia que assola o país — marcada por desabastecimento, hiperinflação, violência crescente e aumento da pobreza e da insegurança alimentar.


A Constituição venezuelana prevê liberdade de pesquisa e divulgação de informações de interesse público. Na prática, porém, o Banco Central deixou de publicar estatísticas confiáveis desde 2019. Qualquer dado não autorizado que exponha a hiperinflação é visto como “terrorismo econômico”.


A prisão dos economistas representa mais um passo na escalada autoritária de Maduro. Antes deles, juízes e opositores políticos já haviam sido encarcerados; agora, o alvo passou a ser quem ousa revelar a realidade econômica venezuelana.


Ao prender quem mede a crise, o governo mina a capacidade dos cidadãos de compreender sua própria realidade econômica. Além disso, universidades, economistas e pesquisadores passam a se autocensurar para evitar retaliações. E investidores estrangeiros se afastam diante de um ambiente onde a verdade estatística é criminalizada.


Organismos como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos afirmam que a liberdade de pesquisa inclui o direito de coletar, processar e difundir dados — especialmente quando envolvem políticas públicas que afetam milhões de pessoas. Sem dados, não há debate; sem debate, não há a possibilidade do adequado exercício de controle social sobre as políticas públicas e os governantes.


Mas aqui cabe uma pergunta: por que isso importa ao Brasil?


O episódio venezuelano serve de termômetro para medir o ambiente institucional da região. A história mostra que: (i) o desprezo por estatísticas oficiais, ou a sua manipulação, costuma ser um claro sinal de deterioração democrática; (ii) ataques à autonomia universitária, ou de pensamento, abrem caminho para a politização do conhecimento; (iii) narrativas que demonizam especialistas enfraquecem o debate plural e empobrecem as soluções de política pública.


Para terminar, é necessário trazer à baila uma reflexão sobre o papel do economista na defesa da liberdade.


O economista não é apenas um intérprete de gráficos ou dados: é um guardião de fatos. Ao quantificar o cotidiano — inflação, emprego, desigualdade — ele ilumina as consequências das escolhas políticas. Quando um governo torna a mera publicação de estatísticas um ato subversivo, sinaliza que prefere o silêncio às evidências.


No Brasil, já vimos tentativas de maquiar dados de desmatamento, subnotificar números de saúde ou desqualificar projeções de orçamento. Por vezes vemos a tentativa de usar de uma contabilidade macroeconômica criativa para alterar os resultados econômicos, diminuir ou disfarçar o déficit público e o descontrole fiscal. Cada vez que a técnica é empurrada para o canto, perde‑se a bússola que orienta decisões públicas e que alerta a sociedade para o que lhe espera no futuro.


Portanto, a prisão dos colegas venezuelanos não é um drama distante. É um espelho que nos convida a proteger a autonomia das universidades, fortalecer a Lei de Acesso à Informação, requerer transparências nas informações sobre políticas e gastos públicos, e valorizar e proteger institutos como IBGE e IPEA. Defender o direito de medir é defender o direito de escolher melhor. Se calarmos os que interpretam a história e a economia nos números, arriscamos repetir, em solo brasileiro, o mesmo roteiro autoritário.


Liberdade acadêmica e de expressão não é luxo intelectual; é pré‑requisito de uma democracia que queira permanecer de pé.

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A leitura do editorial do Wall Street Journal de 17 de novembro de 2024 — um dos jornais mais influentes do mundo, conhecido por sua posição equilibrada — já expunha de forma contundente a grave situação política e institucional do Brasil. Mais do que isso, revela como a opinião pública internacional enxerga os acontecimentos recentes no país.

Segundo o jornal, a atual gestão brasileira representa uma ameaça à estabilidade política da América Latina, tanto pelas aproximações com regimes ditatoriais quanto pela influência negativa que pode exercer na região.


No campo econômico, o editorial traça um quadro alarmante: desordem fiscal, incompetência administrativa e autoritarismo disfarçado de democracia. Enquanto o presidente Lula tenta vender ao mundo a imagem de um governo voltado para os pobres, a realidade interna mostra uma economia à beira do colapso, com uma bomba fiscal armada e em contagem regressiva. O cenário descrito é preocupante: crise fiscal, inflação elevada, fuga de investimentos, desindustrialização, estagnação econômica e aumento da pobreza — tudo isso como resultado direto das políticas implementadas até aqui. Paralelamente, observa-se o favorecimento explícito a aliados ideológicos, com ampliação de privilégios a sindicatos e a expansão de um Estado inchado e ineficiente.


A crítica também se estende ao ambiente institucional e ao discurso do governo em relação a empresários e investidores. Segundo o editorial, o governo tem construído um clima hostil aos negócios, o que desestimula o empreendedorismo e afugenta capitais estrangeiros. Além disso, o cenário político é marcado por perseguições a opositores e tentativas de controle sobre a imprensa, com ameaças à liberdade de expressão e propostas de censura nas redes sociais.


O texto conclui com um alerta contundente: Lula não representa apenas uma ameaça ao Brasil, mas ao mundo. Sua visão de um Estado centralizador e alinhado à regimes autoritários é um modelo ultrapassado e falido — e que, se adotado em larga escala, pode arrastar toda a América Latina ao colapso.


Link para o Editorial: https://archive.ph/02j9V

 

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Autor: Prof. Dr. Eduardo Costa (UFPA)
Material didático complementar da disciplina História Econômica Geral (Facecon/UFPA).


1 Introdução

Este breve texto foi preparado exclusivamente como material de apoio à disciplina História Econômica Geral da Faculdade de Economia da Universidade Federal do Pará (Facecon/UFPA). Neste sentido, trata-se de um material diretivo que busca provocar reflexão e orientar o debate ao longo da disciplina.

Frequentemente quando perguntamos a um não economista, ou até mesmo a um calouro do Curso de Economia, sobre o que faz o economista, a resposta mais comum gira em torno do “especialista em bolsa de valores”, do “consultor que ensina a multiplicar dinheiro” (educador financeiro) ou do profissional que aparece no telejornal para explicar por que a inflação aumentou recentemente.

Essa visão, embora popular, é estreita. O economista é, antes de tudo, um cientista social que investiga como as sociedades criam, distribuem e transformam riqueza ao longo do tempo. Para cumprir essa missão, ele precisa ir além das análises conjunturais e reconhecer os caminhos históricos que construíram — ou bloquearam — o desenvolvimento. É aqui que a História Econômica entra em cena, oferecendo uma lente analítica que procura conectar o passado, o presente e o futuro do (sub)desenvolvimento.

 

2 A perspectiva histórica como recurso analítico


2.1 A dependência de trajetória: o efeito das escolhas


Fenômenos econômicos não surgem do nada: políticas coloniais, guerras, rupturas políticas, industrializações, catástrofes naturais, pandemias ou revoluções tecnológicas deixam marcas que perduram por gerações. Esse “efeito trilha” — path-dependence (dependência de trajetória) — foi popularizado por Douglass North (1994; 2018) na Nova Economia Institucional (NEI). Estudá-lo permite ao economista entender por que certas medidas de política econômica dão certo e outras não. Ou ainda, encontrar respostas para perguntas como:

  1. Por que a Revolução Industrial aconteceu na Inglaterra e não na China, Espanha, Holanda ou França?
  2. O que levou países como Estados Unidos, Alemanha e Japão a vivenciarem um intenso processo de industrialização e desenvolvimento no final do Século XIX?
  3. Qual a explicação para o fenômeno chamado na literatura especializada de a “Grande Divergência”?
  4. O que explica a ruptura de trajetória da Coreia do Sul a partir da década de 1960 que levou o país a superar a sua condição de subdesenvolvimento?
  5. O que explica o nível de crescimento acima da média dos Tigres Asiáticos a partir da década de 1970?
  6. Por que a China entrou em declínio econômico no século XIV e o que explica a extraordinária dinâmica econômica chinesa no primeiro quartel do Século XXI?
  7. O que fez com que a Argentina — que na virada do Século XX era considerada um país promissor, em franco desenvolvimento, com um elevado padrão de vida para a sua época — entrasse após a década de 1950 em um trajetória de decadência econômica e social?
  8. O que fez com que a Venezuela — que entre os anos 1950 e 1980 era um dos países mais prósperos da América Latina, com um dos maiores PIB per capita do mundo (apelidada de “Venezuela Saudita”) — entrasse a partir do final da década de 1990 em uma trajetória de declínio econômico, social e institucional?
  9. Por que a África e a América Latina possuem países com elevada desigualdade social e um contingente considerável de pessoas sobrevivendo abaixo da linha de pobreza?

É na busca de respostas para essas perguntas que a História Econômica se move. Ao estudar séculos de transformações — da Revolução Agrícola à economia digital — o economista começa a perceber padrões e estabelecer relações entre decisões tomadas no passado e dependências de trajetórias que ainda orientam o presente.

 

2.2 Instituições inclusivas versus extrativas


Na sequência do trabalho de North (2018), Daron Acemoglu e James Robinson (2012; 2020) mostram que países prosperam quando constroem instituições inclusivas — regras que distribuem poder político, permitem o controle do Estado pela sociedade, produzem uma ambiência institucional fundada no Estado Democrático de Direito e asseguram direitos de propriedade amplos e liberdade. Já estruturas extrativas, que concentram poder e renda, inibem inovação e crescimento, além de favorecer determinadas elites políticas e econômicas em detrimento da sociedade de forma mais ampla. Observar a história da Inglaterra pós-Gloriosa Revolução, dos países que vivenciaram o processo de industrialização retardatária e dos países latino-americanos, evidencia como arranjos institucionais moldam o desempenho econômico por um longo período.

 

2.3 Laboratório natural de teorias


A História funciona como um gigantesco “experimento natural”. Teorias sobre livre-comércio, proteção industrial, política monetária ou papel do Estado podem ser testadas comparando-se contextos diversos: as industrializações tardias da Alemanha e do Japão no final do século XIX, a Revolução Russa, o New Deal norte-americano, o Plano Real brasileiro, a Crise do Subprime de 2008 ou as reformas de mercado na China pós-1978. Cada episódio histórico informa limites e alcances de modelos abstratos.

Ademais, quando o economista compara teorias econômicas a eventos reais — crises financeiras, revoluções tecnológicas, experiências de superação do subdesenvolvimento, ou o declínio econômico de uma sociedade — ele aprende a questionar modelos prontos, desenvolve um senso crítico entre a teoria e a realidade, e passa a adaptar conceitos ao contexto, evitando anacronismo e simulacros.

 

3 A tríade método–estatística–teoria (Schumpeter revisitado)


O economista austríaco Joseph Alois Schumpeter — uma das mais brilhantes mentes da história do pensamento econômico — inicia a clássica obra História da Análise Econômica (1954) fazendo uma reflexão sobre a Ciência Econômica (SCHUMPETER, 1964). Nela, advoga que o bom economista domina três artes:

  1. História: descreve fatos e mudanças institucionais ao longo do tempo;
  2. Estatística: organiza esses fatos em séries, permitindo quantificação;
  3. Teoria: fornece o arcabouço lógico para interpretar os dados.

 

Separados, esses campos do conhecimento são insuficientes. Séries macroeconômicas isoladas de seu contexto histórico podem sugerir: (i) correlações fantasiosas; (ii) teorias sem evidência empírica viram dogma; (iii) listas de fatos sem interpretação viram “almanaque”. A disciplina História Econômica procura integrar as três vertentes, um diferencial que forma profissionais com uma visão sistêmica e holística da sociedade.

 

4 Competências desenvolvidas na disciplina

 

Competência

Resultado prático

Leitura crítica de dados de longo prazo

Ajustar séries por metodologias históricas, evitar interpretações rasas.

Pensamento comparado

Contrastar experiências de diversos países e períodos.

Análise institucional

Avaliar como culturas, normas e incentivos afetam desempenho econômico.

Visão interdisciplinar

Dialogar com História, Ciência Política, Sociologia, Direito e Antropologia.

Consciência ética

Compreender impactos sociais de políticas econômicas, do colonialismo à globalização.

 

  • Estudos de caso que ilustram a utilidade da disciplina

 

O ciclo da borracha na Amazônia (1870-1912)

 

Sem entender a geopolítica da época — monopólio britânico sobre sementes e subsequente plantio na Ásia — o analista pode concluir falsamente que o fracasso amazônida se deveu apenas à “falta de empreendedorismo”. A História mostra a combinação de choques de oferta, tecnologia, custo de transporte e estrutura fundiária.

 

A revolução industrial britânica


Texto de Robert Allen (2017) revela que a relação entre salários altos, carvão barato e incentivos à mecanização explica a adoção precoce de máquinas a vapor. Esse insight questiona teorias de crescimento universalistas e sublinha a importância de preços relativos.

 

O Plano Real (1994)


Comparar a experiência da estabilização brasileira com planos fracassados dos anos 1980 ensina como arranjos políticos (apoio congressual) e institucionais (autonomia do Banco Central, reforma fiscal, política cambial) condicionam o êxito de reformas monetárias.

 

6 Brasil como laboratório histórico vivo

O Brasil oferece um laboratório histórico vivo: colonização baseada no extrativismo e escravidão, industrialização tardia, rupturas políticas, hiperinflação, Plano Real, instabilidade política e os “ismos” que nos condenam ao subdesenvolvimento (patrimonialismo, personalismo, clientelismo, individualismo, populismo etc.). Sem a lente histórica, o economista corre o risco de importar soluções desenhadas para realidades que nunca enfrentaram nossa herança institucional, econômica e social. A História Econômica ajuda a evitar anacronismos e formular políticas compatíveis com nosso percurso. Mas mais do que isso, ajuda a pensar em como superar o nosso subdesenvolvimento.


Riscos de ignorar a dimensão histórica

 

  1. Políticas copiadas de manuais: Sem o ajuste histórico-institucional, transplantes de políticas podem falhar gerando simulacros.
  2. Modelos herméticos e de curto prazo: Ignoram eventos de raros (baixa probabilidade), porém de alto impacto. Em processos não ergódicos (nos quais o sistema pode saltar para trajetórias bem diferentes), médias históricas recentes (curto prazo) não descrevem bem o futuro. A dimensão histórica é a única forma de perceber transições de longo prazo.
  3. Miopia conjuntural: Focar apenas em elementos conjunturais obscurece desafios estruturais que são fundamentais para o desenvolvimento ou a superação do subdesenvolvimento.

 

Conclusão: uma importante chave analítica

 

A História Econômica equipa o economista com conteúdo e memória analítica: ele aprende a reconhecer padrões, a distinguir inovação real de reprise histórica e a calibrar expectativas sobre reformas. Ao articular teoria, evidência estatística e narrativa temporal, o profissional torna-se capaz de elaborar diagnósticos mais robustos e prescrições mais realistas — algo essencial para quem deseja influenciar políticas públicas, orientar empresas ou pesquisar a dinâmica do desenvolvimento.

Em suma, estudar História Econômica é investir em profundidade. É passar do “qual ação comprar hoje” para a pergunta mais fundamental: quais instituições e trajetórias permitem que sociedades gerem prosperidade sustentada e inclusiva? Essa passagem do imediato para o estrutural é o primeiro passo para formar economistas socialmente responsáveis.

 

 

Referências essenciais

 

ACEMOGLU, Daron; ROBINSON, James. O Equilíbrio do Poder: Estados, sociedades e o futuro da liberdade. Lisboa: Temas e Debates, 2020.

 

ACEMOGLU, Daron; ROBINSON, James. Por que as nações fracassam: as origens do poder, da prosperidade e da pobreza. Elsevier Brasil, 2012.

 

ALLEN, Robert C. História Econômica Global: Uma Breve Introdução. Porto Alegre: L&PM, 2017.

 

CHANG, Há-Joon. Chutando a Escada: A Estratégia de Desenvolvimento em Perspectiva Histórica. São Paulo: Editora UNESP, 2004.

 

NORTH, Douglass. Instituições, Mudança Institucional e Desempenho Econômico. São Paulo: Três Estrelas, 2018.

 

NORTH, Douglass. El Desempeño Económico a lo Largo del Tiempo. El Trimestre Económico, vol. LXI (4), edição 244, 567-583, 1994.

 

SAES, Flávio Azevedo Marque de; SAES, Alexandre Macchione. História Econômica Geral. São Paulo: Saraiva, 2013.

 

SCHUMPETER, Joseph Alois. História da Análise Econômica. Vol. 1. Rio de Janeiro: Centro de Publicações Técnicas da Aliança, 1964.

 

Link para baixar o conteúdo em PDF: https://www.professoreduardocosta.com.br/wp-content/uploads/2025/05/Historia-Economica-Por-que-ela-e-indispensavel-na-formacao-do-economista-Prof.-Dr.-Eduardo-Costa-1.pdf
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Autor: Prof. Dr. Eduardo Costa (UFPA)
Material didático complementar da disciplina História Econômica Geral (Facecon/UFPA).

Escrevi essas breves notas para ajudar os meus alunos da Faculdade de Economia da UFPA a desenvolverem ensaios acadêmicos. Muitos alunos ao ingressarem numa universidade sentem dificuldade com a forma e a padronização dos trabalhos acadêmicos. Esta é uma pequena contribuição para ajudar nessa transição e adaptação. Espero que seja útil.

1. Por que escrever ensaios acadêmicos?

O ensaio acadêmico é um “laboratório de ideias” onde testamos hipóteses, cruzamos fontes e dialogamos com autores e teorias de forma crítica. Diferentemente de um artigo completo, o ensaio privilegia a reflexão bem fundamentada sem, todavia, exigir resultados originais de pesquisa.

2. O que é um ensaio acadêmico?

É um texto argumentativo, crítico e fundamentado que discute um problema delimitado, à luz de referências bibliográficas pertinentes. Ele se posiciona entre o artigo científico (mais rígido) e o texto opinativo (menos criterioso). O objetivo é persuadir racionalmente: apresentar uma tese, sustentá-la com evidências e conduzir o leitor a uma conclusão lógica.

Elementos-chave:

Problema/provocação: claro logo no início.
Tese explícita: a ideia central que você defenderá.
Argumentação: sustentada em literatura, dados ou exemplos históricos.
Estilo formal: impessoal, terceira pessoa ou primeira pessoa do plural, mas com voz autoral.
Referências confiáveis: livros, artigos e fontes primárias, citadas segundo ABNT.


3. Características essenciais do bom ensaio.

Profundidade: Mostra domínio do tema, cita autores centrais da discussão, reconhece controvérsias.
Coesão: Cada parágrafo contribui para desenvolver a tese; transições claras.
Criticidade: Não apenas descreve fatos — analisa causas, consequências, limites das interpretações.
Capacidade de síntese: Seleciona evidências relevantes e evita excesso de citações longas.
Originalidade: Acrescenta insight próprio; dialoga, mas não copia o pensamento alheio.
Normas técnicas: ABNT NBR 6022 (2018), NBR 10520 (2023).

4. Estrutura recomendada

Dica-ouro: pense em três atos — introdução, desenvolvimento e conclusão.

4.1 Introdução (15 % do texto)
Contextualize o tema em um parágrafo.
Delimite o problema ou pergunta.
Apresente sua tese (a resposta que defenderá).
Indique rapidamente como o argumento será organizado (“em primeiro lugar…, em seguida…”).

4.2 Desenvolvimento (70 %)

Divida em entre 2 e 4 seções, cada uma com subtítulo opcional.
Em cada seção:

Ideia-topo (frase-tópico) ligada à tese;
Evidências (dados, citações, exemplos históricos);
Análise crítica (mostre por que a evidência sustenta sua ideia);
Mini fecho conectando ao próximo ponto.

4.3 Conclusão (15 %)

Retome a tese à luz dos argumentos apresentados.
Mostre implicações (para teoria econômica, políticas públicas ou estudos futuros, por exemplo).
Evite adicionar novas fontes: feche o texto.

4.4 Elementos complementares

Título: conciso, informativo, sem abreviações.
Resumo/abstract: não é obrigatório em ensaio, mas se o fizer deve ter em torno de 150 palavras.
Palavras-chave: até 5.
Referências: em lista única ao final, alinhadas à NBR 6023.


5. Diferenças entre ensaio e artigo científico

 

Aspecto

Ensaio acadêmico

Artigo científico (ABNT NBR 6022)

Objetivo

Refletir e argumentar sobre determinado tema (delimitado)

Divulgar resultados originais de pesquisa

Extensão

2 000–5 000 palavras (flexível)

5 000–12 000+ palavras, conforme periódico

Estrutura fixa?

Não. Segue uma lógica argumentativa clássica

IMRD — Introdução-Método-Resultados-Discussão)

Resumo

Opcional

Obrigatório (em português e inglês)

Método

Pode ser implícito

Seção explícita de metodologia (ou teoria)

Revisão por pares

Geralmente não (em alguns periódicos sim)

Obrigatória para publicação

Ineditismo

Desejável, porém foco é análise

Condição de publicação

 

6. Normas ABNT essenciais

Obs.: Alguns detalhes podem variar dependendo do periódico científico de publicação

Formatação geral: A4, margens 2,5 cm; fonte Times New Roman 12; espaçamento 1,5; alinhamento justificado; parágrafo 1,25 cm.
Numeração de páginas: no canto superior direito a partir da introdução.
Citações:
Diretas até 3 linhas: corpo do texto, entre aspas.
Diretas +3 linhas: recuo 4 cm, fonte 10, sem aspas.
Indiretas (paráfrase): cite autor/ano.
Sistema autor-data:
(Sobrenome, ano, p.). Ex.: (NORTH, 1990, p. 112);
ou Sobrenome (ano, p.). Ex.: North (1990, p. 112).
Lista de referências :segundo NBR 6023, sobrenome em maiúsculas, título em negrito etc.
Gráficos/tabelas: título acima, fonte abaixo.
Evite: numerações excessivas de seções — até 2 níveis basta em ensaios curtos.


7.Passo a passo de elaboração

Escolha o tema.
Formule a pergunta-problema.
Pesquisa exploratória: livros-texto, artigos clássicos, vídeos…
Delimite a tese: uma frase que responda à pergunta.
Esboço: crie tópicos-parágrafo.
Redija o rascunho.
Revisão de conteúdo: verifique a lógica do documento e as transições.
Revisão técnico-linguística: clareza, ortografia, coesão.
Normas ABNT: formatação, citações, referências.
Checklist final (ver seção 8).


8. Checklist final

Verifique novamente:

Título claro e coerente.
Problema e tese explícitos na introdução.
Cada parágrafo desenvolve um único ponto ligado à tese.
Citações diretas curtas ≤ 3 linhas.
Lista de referências completa e em ordem alfabética.
Conclusão retoma a tese e indica implicações.
Formatação ABNT.
Revisão ortográfica e de concordância.


9. Considerações finais

Escrever um ensaio é mais que cumprir uma tarefa acadêmica: é exercitar o pensamento crítico. Argumente, dialogue, questione — mas respeite as normas técnicas. Com isso, conseguimos aliar o rigor acadêmico, a criatividade e a originalidade intelectual.

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  Prof. Dr. Eduardo José Monteiro da Costa (UFPA)


Escrevi essas breves notas para ajudar os meus alunos da Faculdade de Economia da UFPA a desenvolverem ensaios acadêmicos. Muitos alunos ao ingressarem numa universidade sentem dificuldade com a forma e a padronização dos trabalhos acadêmicos. Esta é uma pequena contribuição para ajudar nessa transição e adaptação. Espero que seja útil.

 

  1. Por que escrever ensaios acadêmicos?

 

O ensaio acadêmico é um “laboratório de ideias” onde testamos hipóteses, cruzamos fontes e dialogamos com autores e teorias de forma crítica. Diferentemente de um artigo completo, o ensaio privilegia a reflexão bem fundamentada sem, todavia, exigir resultados originais de pesquisa.

 

  1. O que é um ensaio acadêmico?

 

É um texto argumentativo, crítico e fundamentado que discute um problema delimitado, à luz de referências bibliográficas pertinentes. Ele se posiciona entre o artigo científico (mais rígido) e o texto opinativo (menos criterioso). O objetivo é persuadir racionalmente: apresentar uma tese, sustentá-la com evidências e conduzir o leitor a uma conclusão lógica.

 

Elementos-chave:

  • Problema/provocação: claro logo no início.
  • Tese explícita: a ideia central que você defenderá.
  • Argumentação: sustentada em literatura, dados ou exemplos históricos.
  • Estilo formal: impessoal, terceira pessoa ou primeira pessoa do plural, mas com voz autoral.
  • Referências confiáveis: livros, artigos e fontes primárias, citadas segundo ABNT.

 

  1. Características essenciais do bom ensaio

 

  • Profundidade: Mostra domínio do tema, cita autores centrais da discussão, reconhece controvérsias.
  • Coesão: Cada parágrafo contribui para desenvolver a tese; transições claras.
  • Criticidade: Não apenas descreve fatos — analisa causas, consequências, limites das interpretações.
  • Capacidade de síntese: Seleciona evidências relevantes e evita excesso de citações longas.
  • Originalidade: Acrescenta insight próprio; dialoga, mas não copia o pensamento alheio.
  • Normas técnicas: ABNT NBR 6022 (2018), NBR 10520 (2023).

 

  1. Estrutura recomendada

 

Dica-ouro: pense em três atos — introdução, desenvolvimento e conclusão.

 

4.1 Introdução (15 % do texto)

  • Contextualize o tema em um parágrafo.
  • Delimite o problema ou pergunta.
  • Apresente sua tese (a resposta que defenderá).
  • Indique rapidamente como o argumento será organizado (“em primeiro lugar…, em seguida…”).

 

4.2 Desenvolvimento (70 %)

 

Divida em entre 2 e 4 seções, cada uma com subtítulo opcional.

Em cada seção:

  1. Ideia-topo (frase-tópico) ligada à tese;
  2. Evidências (dados, citações, exemplos históricos);
  3. Análise crítica (mostre por que a evidência sustenta sua ideia);
  4. Mini fecho conectando ao próximo ponto.

 

4.3 Conclusão (15 %)

  • Retome a tese à luz dos argumentos apresentados.
  • Mostre implicações (para teoria econômica, políticas públicas ou estudos futuros, por exemplo).
  • Evite adicionar novas fontes: feche o texto.

 

4.4 Elementos complementares

  • Título: conciso, informativo, sem abreviações.
  • Resumo/abstract: não é obrigatório em ensaio, mas se o fizer deve ter em torno de 150 palavras.
  • Palavras-chave: até 5.
  • Referências: em lista única ao final, alinhadas à NBR 6023.

 

  1. Diferenças entre ensaio e artigo científico

 

Aspecto

Ensaio acadêmico

Artigo científico (ABNT NBR 6022)

Objetivo

Refletir e argumentar sobre determinado tema (delimitado)

Divulgar resultados originais de pesquisa

Extensão

2 000–5 000 palavras (flexível)

5 000–12 000+ palavras, conforme periódico

Estrutura fixa?

Não. Segue uma lógica argumentativa clássica

IMRD — Introdução-Método-Resultados-Discussão)

Resumo

Opcional

Obrigatório (em português e inglês)

Método

Pode ser implícito

Seção explícita de metodologia (ou teoria)

Revisão por pares

Geralmente não (em alguns periódicos sim)

Obrigatória para publicação

Ineditismo

Desejável, porém foco é análise

Condição de publicação

 

  1. Normas ABNT essenciais

 

Obs.: Alguns detalhes podem variar dependendo do periódico científico de publicação

 

  • Formatação geral: A4, margens 2,5 cm; fonte Times New Roman 12; espaçamento 1,5; alinhamento justificado; parágrafo 1,25 cm.
  • Numeração de páginas: no canto superior direito a partir da introdução.
  • Citações:
    • Diretas até 3 linhas: corpo do texto, entre aspas.
    • Diretas +3 linhas: recuo 4 cm, fonte 10, sem aspas.
    • Indiretas (paráfrase): cite autor/ano.
  • Sistema autor-data:
  • (Sobrenome, ano, p.). Ex.: (NORTH, 1990, p. 112);
  • ou Sobrenome (ano, p.). Ex.: North (1990, p. 112).
  • Lista de referências :segundo NBR 6023, sobrenome em maiúsculas, título em negrito etc.
  • Gráficos/tabelas: título acima, fonte abaixo.
  • Evite: numerações excessivas de seções — até 2 níveis basta em ensaios curtos.

 

  1. Passo a passo de elaboração

 

  • Escolha o tema.
  • Formule a pergunta-problema.
  • Pesquisa exploratória: livros-texto, artigos clássicos, vídeos…
  • Delimite a tese: uma frase que responda à pergunta.
  • Esboço: crie tópicos-parágrafo.
  • Redija o rascunho.
  • Revisão de conteúdo: verifique a lógica do documento e as transições.
  • Revisão técnico-linguística: clareza, ortografia, coesão.
  • Normas ABNT: formatação, citações, referências.
  • Checklist final (ver seção 8).

 

  1. Checklist final

 

Verifique novamente:

  • Título claro e coerente.
  • Problema e tese explícitos na introdução.
  • Cada parágrafo desenvolve um único ponto ligado à tese.
  • Citações diretas curtas ≤ 3 linhas.
  • Lista de referências completa e em ordem alfabética.
  • Conclusão retoma a tese e indica implicações.
  • Formatação ABNT.
  • Revisão ortográfica e de concordância.

 

  1. Considerações finais

Escrever um ensaio é mais que cumprir uma tarefa acadêmica: é exercitar o pensamento crítico. Argumente, dialogue, questione — mas respeite as normas técnicas. Com isso, conseguimos aliar o rigor acadêmico, a criatividade e a originalidade intelectual.

 

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A jovem do terminal (conto)

Eduardo José Monteiro da Costa

 

Belém, segunda-feira nove e quarenta da noite. O concreto do Terminal de São Brás ainda transpirava a chuva amazônica, formando pequenas poças que refletiam os faróis dos carros e o céu nublado. Letícia, encolhida sobre um banco úmido, sentia o frio entrar pelos rasgos do casaco. Há três anos vivia ali e em outros cantos da cidade: sob marquises, em praças, entre papelões. Três anos — tempo suficiente para que seu aniversário passasse sem que ela percebesse e para que os seus vinte e cinco parecessem quarenta.

O movimento noturno do terminal era um ciclo hipnótico: buzinas de ônibus, carros passando, pessoas gritando. Mas, naquele instante, tudo parecia distante; só o coração batia alto e a sua respiração ofegante a lembravam que ainda estava viva. Os dedos apertavam uma fotografia amarfanhada — ela e o avô João pescando no rio Guamá. Ele a chamava de “minha princesa do cais”. Aquela lembrança era o último fiapo que a amarrava a algum passado onde ainda havia sobrenome e dignidade.

Dentro dela, porém, morava outra coisa: um buraco feito de arrependimento, culpa e a certeza amarga de que Deus, se existisse, a teria riscado dos planos muito antes da primeira dose de oxi.

***


O amanhecer trouxe uma chuva fina e o odor de café saindo das barracas. Letícia levantou‑se, pernas trêmulas, e iniciou a busca diária por “combustível”. Tentou lavar o rosto num bebedouro quebrado do terminal, mas a água só gotejou sobre a poeira. A cada passo, revivia cenas que haviam a ajudado a destruir suaa própria alma: discutir com a mãe e sair de casa, o namorado que a introduziu no crack, o assalto frustrado que a deixou com a cicatriz na sobrancelha.

Perto da linha de embarque, aproximou‑se de um casal que aguardava o ônibus para Mosqueiro. A mulher apertou a bolsa ao ver aquela figura esquálida. Letícia estendeu a mão e balbuciou: — “Qualquer trocado… minha filha está doente”.

Mentira automática. Recebeu olhares de repulsa. Partiu. Numa esquina, ofereceu um celular velho — achado no chão de um banheiro fétido — em troca de uma pedra. Conseguiu apenas metade de uma, fumada num canto, escondida da polícia. O torpor chegou rápido, mas também partiu na mesma velocidade, deixando‑a ainda mais vazia.

A chuva engrossou. Sem dinheiro, sem droga, sem forças. Voltou ao banco — o seu ponto final particular — com o pressentimento de que ali era a sua última parada.


***


Passos arrastados ecoaram pelo corredor coberto. Não eram passos de pressa; pareciam conhecer o destino. Um homem de meia‑idade, barba grisalha rala, aproximou‑se. Vestia calça social antiga, sapatos gastos e carregava uma sacola térmica. Sentou-se ao seu lado, respeitando uma certa distância.

— Trouxe isso pra você — disse, colocando um copo de suco de cupuaçu, um sanduíche de queijo‑coalho e um cobertor seco sobre o banco.

Letícia mirou o chão. A cabeça gritava: “não confie”. O estômago, porém, rugiu. Pegou o copo. O líquido doce lavou a garganta, e lágrimas quentes subiram aos olhos.

— Não precisa agradecer — continuou ele, voz rouca, mas cálida. — Meu nome é Elias.

Ela não respondeu.

— Já estive aí… — ele apontou o chão. — Não nesse banco. Mas nesse buraco. Dez anos preso ao crack. Diziam que eu era um zumbi no Ver‑o‑Peso. Perdi trabalho, família, quase a vida. Até que um senhor me ofereceu um prato de sopa e me falou de um Deus que me conhecia pelo nome, mesmo quando eu mal lembrava dele.

Letícia franziu o cenho.

— Deus? — a palavra saiu carregada de ceticismo. — Deus não passa por aqui.

Elias suspirou.

— Era o que eu pensava também. Mas descobri que eu é que tranquei a porta. — Retirou do bolso um cartão plastificado com letras caprichadas. — “O Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito abatido.”

Ela aceitou o cartão sem entender por quê. As mãos tremiam: fome, abstinência ou uma esperança teimosa?

— Volto amanhã, se você quiser. — Ele se ergueu. — E a propósito: Letícia é nome de princesa. Ainda há um Rei que chama você de filha.


***


Durante os seis dias seguintes, o terminal tornou-se um ponto de encontro. Elias chegava sempre com algo simples — às vezes sopa, um mingau ou um cobertor seco e cheiroso. Mas, sobretudo, ouvidos atentos. Ele falava pouco, escutava muito e jamais despejava reflexões moralistas; contava‑lhe pedaços da própria jornada, intercalando histórias de recaídas e da mão invisível que o puxava de volta.

No final da tarde do domingo de Páscoa, no dia do sétimo encontro, Elias surgiu com um convite tímido:

— Vai acontecer uma cantata logo ali, na Igreja Primeiro Amor. Nada obrigado, mas eu ficaria feliz se você me acompanhasse. Dizem que os músicos dessa igreja são muito talentosos. Sem falar que há um grupo de teatro bastante criativo.

O medo travou as pernas de Letícia, mas algo — talvez o verso do velho cartão, talvez a voz do avô ecoando infância adentro — empurrou‑a para fora do banco. Caminharam sob o entardecer. À porta, um casal de diáconos da igreja a recebeu com um sorriso convidativo e um “bem‑vinda” que para ela soou como um “eu te amo”.

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