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Hoje pela manhã, ao deixar meu filho no colégio, liguei o rádio do carro. Entre uma notícia e outra, veio o dado: segundo pesquisa do Instituto Atlas, 54% dos brasileiros consideram a corrupção o maior problema do país. Cinquenta e quatro por cento. Uma maioria moral.

 

Desliguei o rádio com aquela sensação estranha de que, se a maioria concorda sobre o diagnóstico, por que a doença persiste?

 

A corrupção não é um fenômeno meteorológico. Não cai do céu como chuva de verão. Ela tem CPF, partido, palanque, campanha. E, sobretudo, tem voto. Os políticos que hoje ocupam cargos públicos não surgiram por geração espontânea. Foram escolhidos. Foram defendidos. Foram eleitos e reeleitos.

 

Há algo de paradoxal nisso: a mesma população que condena a corrupção nas pesquisas a legitima nas urnas.

 

Ao chegar em casa, deparei-me com uma cena curiosa. Tenho no quintal um viveiro grande, antigo, que está desativado há muito tempo. A porta permanece aberta, as grades já não cumprem função alguma. E, no entanto, lá dentro estava um pássaro preto — grande, elegante, inquieto. Não sei de onde veio. Talvez tenha sido criado em cativeiro um dia e, ao ver a estrutura, reconheceu nela algo familiar.

 

O mais intrigante: a porta estava escancarada.

 

Ainda assim, o pássaro permanecia lá dentro, saltando de poleiro em poleiro, como se as grades invisíveis fossem mais fortes que a liberdade concreta diante dele.

 

Fiquei olhando a cena por alguns minutos. Ele podia sair. Bastava um voo curto. Não havia cadeado. Não havia armadilha. Só hábito.

 

Talvez seja essa a imagem mais fiel do nosso tempo. Criticamos o sistema, denunciamos os vícios, apontamos os escândalos — mas, quando chega a hora decisiva, voltamos para dentro da gaiola. Reelegemos os mesmos nomes, repetimos os mesmos discursos, justificamos o injustificável com o argumento do “mal menor”, do “é o que temos”, do “sempre foi assim”.

 

A porta da política brasileira está aberta. Chama-se voto. Chama-se responsabilidade. Chama-se coerência entre o que dizemos nas pesquisas (ou nas redes sociais) e o que fazemos nas urnas.

 

Mas, como o pássaro preto, insistimos em permanecer no espaço que nos aprisiona.

 

Não é a gaiola que nos mantém presos. É a familiaridade com ela.

 

E talvez essa seja a forma mais sofisticada de cativeiro: quando a liberdade está ao alcance das asas, mas o medo — ou o costume — nos impede de voar.

 

Eduardo Costa. Belém, 27/02/2026

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Hoje, 25 de julho, é o Dia do Escritor.

Desde fevereiro, venho mergulhando mais fundo na arte da escrita literária, como aluno do Curso de Formação de Escritores da Metamorfose, venho exercitando escuta, leitura e prática — não apenas para aprimorar a técnica, mas para aprofundar o olhar sobre o mundo, as pessoas e sobre mim mesmo.


Escrever é um ato de construção: de linguagem, de sentido, de memória. Para alguém habituado ao universo, por vezes hermético, da economia e da linguagem acadêmica, escrever literatura tem sido como atravessar uma ponte: do rigor analítico à abertura sensível da condição humana. A palavra deixa de ser apenas ferramenta de explicação, para tornar-se espaço de revelação do sentimento, do sentido, da existência e da eternidade.


Do esboço inicial de um primeiro romance, passando pelos primeiros contos, por crônicas e ensaios, sigo escrevendo, mas agora movido pelo desejo de tocar a alma das pessoas, de estabelecer uma diferente forma de conexão.


Escrever não é apenas um dom. É um chamado. Um caminho que adentrei com gratidão.

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A jovem do terminal (conto)

Eduardo José Monteiro da Costa

 

Belém, segunda-feira nove e quarenta da noite. O concreto do Terminal de São Brás ainda transpirava a chuva amazônica, formando pequenas poças que refletiam os faróis dos carros e o céu nublado. Letícia, encolhida sobre um banco úmido, sentia o frio entrar pelos rasgos do casaco. Há três anos vivia ali e em outros cantos da cidade: sob marquises, em praças, entre papelões. Três anos — tempo suficiente para que seu aniversário passasse sem que ela percebesse e para que os seus vinte e cinco parecessem quarenta.

O movimento noturno do terminal era um ciclo hipnótico: buzinas de ônibus, carros passando, pessoas gritando. Mas, naquele instante, tudo parecia distante; só o coração batia alto e a sua respiração ofegante a lembravam que ainda estava viva. Os dedos apertavam uma fotografia amarfanhada — ela e o avô João pescando no rio Guamá. Ele a chamava de “minha princesa do cais”. Aquela lembrança era o último fiapo que a amarrava a algum passado onde ainda havia sobrenome e dignidade.

Dentro dela, porém, morava outra coisa: um buraco feito de arrependimento, culpa e a certeza amarga de que Deus, se existisse, a teria riscado dos planos muito antes da primeira dose de oxi.

***


O amanhecer trouxe uma chuva fina e o odor de café saindo das barracas. Letícia levantou‑se, pernas trêmulas, e iniciou a busca diária por “combustível”. Tentou lavar o rosto num bebedouro quebrado do terminal, mas a água só gotejou sobre a poeira. A cada passo, revivia cenas que haviam a ajudado a destruir suaa própria alma: discutir com a mãe e sair de casa, o namorado que a introduziu no crack, o assalto frustrado que a deixou com a cicatriz na sobrancelha.

Perto da linha de embarque, aproximou‑se de um casal que aguardava o ônibus para Mosqueiro. A mulher apertou a bolsa ao ver aquela figura esquálida. Letícia estendeu a mão e balbuciou: — “Qualquer trocado… minha filha está doente”.

Mentira automática. Recebeu olhares de repulsa. Partiu. Numa esquina, ofereceu um celular velho — achado no chão de um banheiro fétido — em troca de uma pedra. Conseguiu apenas metade de uma, fumada num canto, escondida da polícia. O torpor chegou rápido, mas também partiu na mesma velocidade, deixando‑a ainda mais vazia.

A chuva engrossou. Sem dinheiro, sem droga, sem forças. Voltou ao banco — o seu ponto final particular — com o pressentimento de que ali era a sua última parada.


***


Passos arrastados ecoaram pelo corredor coberto. Não eram passos de pressa; pareciam conhecer o destino. Um homem de meia‑idade, barba grisalha rala, aproximou‑se. Vestia calça social antiga, sapatos gastos e carregava uma sacola térmica. Sentou-se ao seu lado, respeitando uma certa distância.

— Trouxe isso pra você — disse, colocando um copo de suco de cupuaçu, um sanduíche de queijo‑coalho e um cobertor seco sobre o banco.

Letícia mirou o chão. A cabeça gritava: “não confie”. O estômago, porém, rugiu. Pegou o copo. O líquido doce lavou a garganta, e lágrimas quentes subiram aos olhos.

— Não precisa agradecer — continuou ele, voz rouca, mas cálida. — Meu nome é Elias.

Ela não respondeu.

— Já estive aí… — ele apontou o chão. — Não nesse banco. Mas nesse buraco. Dez anos preso ao crack. Diziam que eu era um zumbi no Ver‑o‑Peso. Perdi trabalho, família, quase a vida. Até que um senhor me ofereceu um prato de sopa e me falou de um Deus que me conhecia pelo nome, mesmo quando eu mal lembrava dele.

Letícia franziu o cenho.

— Deus? — a palavra saiu carregada de ceticismo. — Deus não passa por aqui.

Elias suspirou.

— Era o que eu pensava também. Mas descobri que eu é que tranquei a porta. — Retirou do bolso um cartão plastificado com letras caprichadas. — “O Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito abatido.”

Ela aceitou o cartão sem entender por quê. As mãos tremiam: fome, abstinência ou uma esperança teimosa?

— Volto amanhã, se você quiser. — Ele se ergueu. — E a propósito: Letícia é nome de princesa. Ainda há um Rei que chama você de filha.


***


Durante os seis dias seguintes, o terminal tornou-se um ponto de encontro. Elias chegava sempre com algo simples — às vezes sopa, um mingau ou um cobertor seco e cheiroso. Mas, sobretudo, ouvidos atentos. Ele falava pouco, escutava muito e jamais despejava reflexões moralistas; contava‑lhe pedaços da própria jornada, intercalando histórias de recaídas e da mão invisível que o puxava de volta.

No final da tarde do domingo de Páscoa, no dia do sétimo encontro, Elias surgiu com um convite tímido:

— Vai acontecer uma cantata logo ali, na Igreja Primeiro Amor. Nada obrigado, mas eu ficaria feliz se você me acompanhasse. Dizem que os músicos dessa igreja são muito talentosos. Sem falar que há um grupo de teatro bastante criativo.

O medo travou as pernas de Letícia, mas algo — talvez o verso do velho cartão, talvez a voz do avô ecoando infância adentro — empurrou‑a para fora do banco. Caminharam sob o entardecer. À porta, um casal de diáconos da igreja a recebeu com um sorriso convidativo e um “bem‑vinda” que para ela soou como um “eu te amo”.

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