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Hoje ainda é véspera. A cidade segue seu roteiro habitual, e nela a conversa fiada do “não adianta” e o silêncio bem treinado do “melhor não se meter”. Mas há uma coisa diferente no ar — não é notícia, é um incômodo. Um desses incômodos que não cabem na gaveta das rotinas.

 

Amanhã, 1º de março, tem gente indo às ruas em muitas cidades. Em Belém, 8h30, na escadinha da Presidente Vargas. E antes que alguém pergunte “vai ter pauta?”, “vai ter liderança?”, “vai ter consenso?”, eu respondo com a única honestidade possível: vai ter gente. E, hoje, isso já é uma pauta.

 

Porque a verdadeira pergunta não é “por que ir?”. A pergunta é: por que ficamos?

O Brasil virou o país em que a indignação precisa de autorização — e, se possível, de carimbo. A corrupção virou paisagem: todo mundo reclama, todo mundo lamenta, e quase todo mundo continua vivendo como se fosse um fenômeno meteorológico, tipo chuva forte no inverno. Acontece. Molha. Passa. E seguimos.

 

Só que não passa.

 

Há um tipo de cansaço que não é físico; é cansaço moral. É quando a pessoa vai se acostumando ao absurdo como quem se acostuma ao barulho do trânsito. No começo incomoda. Depois vira “normal”. E, quando vira normal, o país entra naquela fase perigosa em que o escândalo não choca; apenas confirma.

 

E aí chegamos ao ponto: será que o brasileiro perdeu a capacidade de se indignar — ou será que aprendeu a ser cúmplice por omissão?

A omissão é confortável, porque dá a sensação de inocência: “eu não tenho nada a ver com isso”. Só que a omissão, na vida pública, tem um problema: ela não é neutra. Ela é voto silencioso a favor do que já está aí.

 

Amanhã é, portanto, um teste simples — quase ingênuo — de caráter cívico:

se eu acredito que há algo errado, eu ajo ou eu apenas assisto?

 

Ir às ruas amanhã não é “pedir ruptura”. É exatamente o contrário: é lembrar que democracia não é só urna; é limite, responsabilidade, freio e contrapeso, respeito às regras, previsibilidade do direito, instituições que se contêm a si mesmas. Quando as pessoas passam a sentir que as instituições se esticam demais, que a régua muda conforme o alvo, que a exceção vira método, nasce o dever de dizer: chega!

 

Um “chega!” de quem quer viver num país em que a lei não seja um instrumento de perseguição, em que a corrupção não seja um pedágio, em que a liberdade não seja tolerada apenas quando concorda, em que o Estado de Direito não seja uma expressão bonita repetida enquanto a prática vai por outro caminho.

 

Amanhã, eu vou às ruas com a minha família porque há coisas que não se ensinam por discurso, mas por presença. Porque filho aprende mais com o que o pai faz do que com o que o pai posta. Porque, se um dia eu quiser falar de liberdade, eu preciso ter sido visto defendendo-a quando custava alguma coisa — nem que seja uma manhã de domingo, um sol de Belém, e a coragem de aparecer.

 

Amanhã, na escadinha, não estaremos todos iguais. Há muitas divergências. E ainda bem.

Mas estaremos unidos por uma ideia mínima, que deveria ser óbvia e virou “polêmica”: um país decente não pede silêncio; pede vigilância. Um país decente não trata indignação como excesso; trata como prevenção.

 

Então, se você me perguntar “por que devo ir às ruas amanhã?”, eu devolvo com ironia, mas sem brincadeira: porque o Brasil está cheio de especialistas em reclamar e escasso de cidadãos dispostos a comparecer. Porque o que está em jogo não é um partido, nem uma pessoa, nem uma moda política — é o hábito de aceitar o inaceitável.

 

Amanhã é 1º de março.

E ir às ruas é, talvez, o último suspiro de quem ainda sonha com uma democracia pujante, com liberdade real, e com um Estado que se submeta às suas próprias regras.

 

Quem não tem indignação, ao menos que tenha vergonha.

E quem tem indignação — que leve o corpo onde já levou a opinião.

 

Nos vemos na rua.

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Hoje pela manhã, ao deixar meu filho no colégio, liguei o rádio do carro. Entre uma notícia e outra, veio o dado: segundo pesquisa do Instituto Atlas, 54% dos brasileiros consideram a corrupção o maior problema do país. Cinquenta e quatro por cento. Uma maioria moral.

 

Desliguei o rádio com aquela sensação estranha de que, se a maioria concorda sobre o diagnóstico, por que a doença persiste?

 

A corrupção não é um fenômeno meteorológico. Não cai do céu como chuva de verão. Ela tem CPF, partido, palanque, campanha. E, sobretudo, tem voto. Os políticos que hoje ocupam cargos públicos não surgiram por geração espontânea. Foram escolhidos. Foram defendidos. Foram eleitos e reeleitos.

 

Há algo de paradoxal nisso: a mesma população que condena a corrupção nas pesquisas a legitima nas urnas.

 

Ao chegar em casa, deparei-me com uma cena curiosa. Tenho no quintal um viveiro grande, antigo, que está desativado há muito tempo. A porta permanece aberta, as grades já não cumprem função alguma. E, no entanto, lá dentro estava um pássaro preto — grande, elegante, inquieto. Não sei de onde veio. Talvez tenha sido criado em cativeiro um dia e, ao ver a estrutura, reconheceu nela algo familiar.

 

O mais intrigante: a porta estava escancarada.

 

Ainda assim, o pássaro permanecia lá dentro, saltando de poleiro em poleiro, como se as grades invisíveis fossem mais fortes que a liberdade concreta diante dele.

 

Fiquei olhando a cena por alguns minutos. Ele podia sair. Bastava um voo curto. Não havia cadeado. Não havia armadilha. Só hábito.

 

Talvez seja essa a imagem mais fiel do nosso tempo. Criticamos o sistema, denunciamos os vícios, apontamos os escândalos — mas, quando chega a hora decisiva, voltamos para dentro da gaiola. Reelegemos os mesmos nomes, repetimos os mesmos discursos, justificamos o injustificável com o argumento do “mal menor”, do “é o que temos”, do “sempre foi assim”.

 

A porta da política brasileira está aberta. Chama-se voto. Chama-se responsabilidade. Chama-se coerência entre o que dizemos nas pesquisas (ou nas redes sociais) e o que fazemos nas urnas.

 

Mas, como o pássaro preto, insistimos em permanecer no espaço que nos aprisiona.

 

Não é a gaiola que nos mantém presos. É a familiaridade com ela.

 

E talvez essa seja a forma mais sofisticada de cativeiro: quando a liberdade está ao alcance das asas, mas o medo — ou o costume — nos impede de voar.

 

Eduardo Costa. Belém, 27/02/2026

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